pedaços grandes de ar

Com a cara toda para fora da janela do carro, Geraldo lambia o vento vorazmente, como se pudesse.

- Que gosto tem o vento, cachorro? – Perguntei em voz alta, quase gritando, afinal fica um barulhão no carro quando a janela está aberta.

Mas Geraldo fazia que não me ouvia. Parecia uma grande diversão abocanhar pedaços grandes de ar.

Apelei:

- Te trago junto para poder conversar com alguém… Sabia?

Mas, nada. Alguns cachorros parecem viciados nesse treco de ficar com a cara para fora da janela num carro em movimento, como se estivessem voando, sei lá. É quase tão hipnotizante quanto morder carteiros, acho.

Apelei mais fundo:

- Vou jogar fora todo Arak que encontrar em casa!

E assim, o cão voltou para seu banco, me olhando com olhos espremidos.

- Fala que eu te escuto, Guiga.

É engraçado ter um cão como Geraldo. Ele é atrapalhado, ou talvez, atrapalhador, mas tem um bom coração, uma doçura quase que inocente. Apronta muito, me deixa louca, mas é um cão magnífico. E eu ali olhando aquele bicho felpudo no banco da frente, me senti dona do mundo. Não por simplesmente ter um fanfarrão de pelos brancos por perto, não só por dividir minha vida com um ser que muita gente nem acredita que existe de verdade por ser tão especial, mas por poder viver isso tudo. Viver de verdade esses momentos.

Ele tinha até arranjado um lindo enfeite de Natal para porta, lindo mesmo.

- Se você não falar alguma coisa e não parar de me olhar com essa cara de boba, Guiga, eu vou voltar para a janela.

- Eu estou apenas pensando em coisas da vida, Geraldo. Coisas bonitas e profundas do viver. Você deveria fazer isso de vez em quando também.

- Ora, Guiga. Você não entende que com todo aquele vento lá fora é difícil pensar em profundidade aqui?

- Ok, então, vamos brincar de alguma coisa.

- Tá bom, Guiga. Vamos brincar de “quem é trouxa”?

- Como é essa brincadeira, Geraldo?

- É um jogo de perguntas e respostas. Geralmente quem pergunta é trouxa.

(…)

- Você não vai falar mais nada, Guiga?

- Você é trouxa.

- Por que?

- Porque você perguntou. Tem outro jogo?

- Não tem mais jogo, não, Guiga.

- Ok.

(…)

- Vai ficar assim? Sem falar comigo, Guiga?

- Trouxa, de novo. Perguntou de novo! Há, há, há…

- Não tem graça.

- Claro que tem graça. Há, há, há… Pelo menos eu, pra variar, estou rindo.

- Vou voltar para a janela.

- Ah, Geraldo, brincadeirinha… Fica aí. Ah, e fica quieto. Tem blitz policial ali na frente.

- Eita, jura? Deixa eu me esconder.

- Por que, Geraldo? Fica quieto aí, vai chamar a atenção dos guardas e…

Mas não adiantou nada dizer para o cão se comportar. Ele pulou para trás, fez o maior estardalhaço, depois pulou pra frente de novo, com um lenço rosa na cabeça e todo embrulhado em uma jaqueta minha. Azul. Ao menos fazia uma bela composição.

Porém, naquele momento olhei para o lado, aterrorizada, enquanto o guarda fazia sinal para eu parar. Fui encostando o carro enquanto lançava um olhar de total desaprovação para o cachorro esquisito ao meu lado.

O policial, um jovem magro de cabelos negros, fez sinal com as mãos para que eu abaixasse o vidro. E foi o que eu fiz um tanto nervosa.

O jovem se abaixou um pouco e enquanto olhava Geraldo como se tivesse o monstro do lago Ness ao meu lado, e disse quase como se estivesse assustado:

- O que é isso aí?

Eu olhei para o policial, olhei para Geraldo que agora fingia lixar as unhas, (onde ele teria achado aquela lixa?), e olhei novamente para o policial, que agora já parecia recobrado do susto, e renunciava a sua pergunta anterior, fazendo outra:

- Senhora, estamos fazendo a campanha, “preciso beber alguma coisa”, ah, quero dizer, “direção segura”, isso, campanha “direção segura”.

O homem estava visivelmente afetado pela cena ridícula que presenciava. Ou estava bêbado. Talvez eu nunca saiba.

- Senhora…

- Ok, eu entendi, seu guarda. O que preciso fazer?

O policial agora olhava bem em meus olhos e olhou para Geraldo em seguida, com visível medo. Intercalando um sorriso sem sal e a vontade de dizer algo bem estranho para mim. Eu sentia isso. Uma mulher sempre sabe.

- Por favor, dona…

- Ok, seu guarda, eu estou ouvindo.

E foi nesse momento que o rapaz, cheio de si, veio para cima de mim com um treco preto, parecendo um daqueles telefones antigos de carro que a gente vê em filmes americanos bregas e antigos.

- A senhora se importa de fazer o teste do bafômetro?

Meu primeiro pensamento foi tentar fazer a conta das horas que haviam se passado desde a última vez que eu tinha bebido. No nervosismo achei que dava algo entre dezesseis horas. Ou talvez trinta minutos. Olhei para Geraldo novamente, e ele estava agora lendo um folder de venda de apartamento. De cabeça para baixo.

Voltei para o rapaz de cabelos pretos e disse:

- Seu guarda, eu posso pensar? – falei aquela frase idiota olhando bem nos olhos do moço que segurava o equipamento preto a minha frente como se aquilo o pudesse proteger de nós, eu e Geraldo, um cão disfarçado de gente, lendo um folder de ponta cabeça.

Como o homem não dizia palavra, continuei:

- Então, se eu puder pensar vou saber se aceito ou não. Faz sentido?

O homem fardado, num repente de sobriedade disse com voz grossa:

- Senhora, nem tudo na vida precisa ter sentido. Alguém com um cão como o seu devia bem saber disso.

Fazia sentido.

Num supetão disse Geraldo com voz de urso (hibernando) para não ser ouvido pelo policial:

- Guiga. A não ser que você tenha levantado durante a noite, faz quatorze horas que você bebeu pela última vez. Faz logo esse teste e vamos embora.

Então, assim que eu disse “ok, eu faço o teste, afinal a gente tem que ter féééé…” o homem tirou o aparelho da frente da minha boca, levou para perto dos seus olhos e disse:

- Ótimo. Deu zero, senhora. Está aprovada. Pode ir em paz. Tenha um bom dia.

Saí olhando pelo retrovisor quando o guarda fazia gestos estranhos e falava com um colega apontando meu carro.

- Vamos logo, Guiga. Que droga. – Esbravejou Geraldo tirando o lenço rosa da cabeça.

Fomos nos distanciando do local, e eu sem  conseguir concatenar os fatos. Resolvi perguntar, enfim, para o protagonista da cena:

- Geraldo, me diga, o que aconteceu lá atrás? O que diabos foi aquilo tudo?

O cachorro olhava para mim e para o vidro e lançou a pérola:

- Me deixa ficar na janela se eu responder?

Eu não tinha muita alternativa senão topar.

- Ok. Deixo. Mas vai contando o que aconteceu.

E num zapt, enquanto abria a janela e colocava a cabeçona para fora:

- Eu achei que eles estavam atrás de mim pelo enfeite de Natal que eu roubei do seu Anastácio do 81.

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13 Respostas to “pedaços grandes de ar”

  • Renato

    hahaha…boa Guida!!! Um quadrinho do geraldo nesse post ia ser fenomenal!!!

  • Chris

    Ameaçar jogar fora todo o Arak é golpe baixo, hein! rsrs

  • guida.ribeiro

    É mesmo, Renato. ótima idéia! Um cachorro louco com lenço rosa…
    obrigada por ler AMOR É NOME DE PAÇOCA
    beijo
    Guida

  • guida.ribeiro

    putz, é mesmo Criconildaz!!!
    beijo grande
    Guida

  • Ritinha

    Meu Deus! Tô viciando nesse Blog… Cara, meu maxilar dói de tanto rir! Vocês dois são o máximo! Fico imaginando o Geraldo de jaqueta, lenço e ainda lendo… Ha, ha, ha. Beijos nos dois.

  • Ju

    Não há como ler e deixar de imaginar o Geraldo de lenço rosa e blusa azul… Esse fico bom, muito bom mesmo! :-)

  • guida.ribeiro

    Opa! Então, Ritinha, indica para seus amigos, colegas e compatriotas!
    beijos e muitíssimo obrigada
    Guida

  • Ritinha

    Pode deixar, já estou fazendo isso. Tava vendo o facebook de uma amiga quando vi o endereço do seu blog e como disse anteriormente, tô simplismente ADORANDO! Beijos.

  • guida.ribeiro

    obrigada, Ritinha. Viva o Facebook! beijos

  • Carol

    Adorei Guida!!!!! muito boa!!! De tudo um pouco, muito inteligente, parabéns!!! beijuuuus

  • Mary

    Se eu fosse o guarda, depois de ver um cachorro vestido numa jaqueta azul, com lenço rosa e lixando as unhas … faria o teste do bafômetro em mim!!!
    Geraldo … amo vc!!!! rs

  • guida.ribeiro

    Obrigadíssima, querida Mary.
    Muito bom esse seu comentário!!!
    rsrsrsr
    beijo grande e obrigada pelo carinho

  • meg

    O que é isso aí???? Olha a pergunta do Seu guarda!!! Tadinho do Geraldo… mas confesso, dei muitas gargalhadas, foi o máximo essa pergunta..fiquei imaginando a carinha dele…hahahaha

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