legítima
É um prazer legítimo, pelo menos parece legítimo, conseguir acomodar em minha vida as ansiedades em um lugar, os desejos também em um lugar, as sombras, as luzes, sem me preocupar exatamente se esses lugares são os mesmos… Afinal, o que importa é que há lugar.
E as certezas, essas podem mudar. Assim como as verdades que a gente inventa.
Não há mais tanta necessidade de entender pessoas. É da natureza das pessoas serem incompreensíveis. Há necessidade de amá-las, isso sim.
E o amor é mais ou menos o que a gente pensa que é. Nunca simplesmente é, entende?
Nem eu. E isso valida minha condição legítima, pelo menos parece legítima, de ser humana.
guida.ribeiro
o tempo cura
O tempo cura
É merthiolate, “mercúrio cromo”, beijo de amor
O tempo não dá um tempo… E ninguém para o tempo nem a própria dor
nem quem tem coração, nem o olho do furacão, nem mesmo a Legião
e, por vezes, pode ser bem bom
Tempo é bola chinesa de porcelana
É pão quente na mesa, vitamina C e cama
É abraço de pai e mãe e às vezes até de tia
Tempo é ganhar de virada
Tempo é o primeiro na chegada
É uva Thompson, cereja fresca, melancia
É milho cozido com sal e manteiga
É felicidade para uma vida inteira
É o luar, o mar, estrelas
Tempo sou eu, você, todo mundo
É andar sem sapato, olhar formiga no muro
Dizer tolices, fazer besteiras
Tempo assenta, experimenta, às vezes é pura encrenca…
Mas tempo é tempo, quem puder aguenta
Também é calor dos infernos, humidade relativa do ar
É confusão dos hemisférios, derretimento polar
Ou meu batom no seu copo num bar
Pode acabar agora
Ou durar mais meia hora…
E simplesmente passar
Mas agora é meu.
.
guida.ribeiro
cartinha de amor
De certa forma, contrariando meu gênero, (que, para quem não viu ainda, é feminino), eu não sou do tipo que se liga em datas. Não ligo.
Como quase todo ser-humano que respira, eu gosto de ganhar presente no dia do meu aniversário, mas, de verdade, prefiro ganhar em outra data. Prefiro mesmo. Acho tão mais… Inesperado?
Enfim, gosto de não ter que me preocupar com datas, mas não dá para conviver com esse meu jeito numa boa em um mundo de gente que se importa com elas (as datas). Seria puro egoísmo de minha parte se eu não tentasse ao menos me esforçar para lembrar. Então, tento marcar os dias importantes mentalmente. Talvez seja por isso que eu me esqueça de alguns, afinal ninguém tem a mente assim tão livre para se lembrar de tantos dias importantes, como o primeiro dia usando sutiã, ou a primeira nota zero. Tem também a primeira banana split, a primeira piada que a gente mesmo fez e que todo mundo riu, os primeiros vinte reais que aquele tio legal deu, a última vez que a gente tomou mamadeira – ou o dia que jogou a chupeta fora – o primeiro leite derramado no café da manhã, o primeiro banho sem nenhum adulto por perto, o dia do primeiro beijo, a primeira aula de direção.
O pior é ter ainda que disputar o lugar na mente para todas essas datas com o dia do fico, da revolução constitucionalista, da bandeira, do índio, o dia do aniversário dos nossos pais, ou ainda a fórmula do trinômio quadrado perfeito, todos os nomes dos estados do nosso país, incluindo suas capitais, o CEP da nossa casa, a senha do cartão do banco, do login do outlook no trabalho, do email particular, os números do alarme de casa!
Uma vez marquei algumas informações importantes cifradas num arquivo cifrado, dentro de um diretório esquisito no computador de casa. Dentre essas informações, guardei algumas datas importantes. Isso seria muito bom se eu não tivesse esquecido a senha de acesso de toda essa parafernália.
Com tudo isso posto, é fácil ver que a vida para mim não tem sido muito fácil no que tange a lembranças. Além do que, minha memória já não vale mais tostão. Outro dia me esqueci de como se engatava a marcha à ré do meu carro. Foi por uns dois segundos, mas me esqueci completamente, não vou negar.
E tem mais. Por várias vezes vou tentar chamar alguém que conheço e o nome da pessoa não me vem à mente nem por reza brava. Aí, falo o primeiro nome que me ocorrer. Como Eduardo, Cacilda ou Tijuana. Raramente acerto. Algumas vezes, depois da pessoa me olhar com cara de pavor, ela acredita sempre que eu estou brincando. Até ensaia um sorriso quando eu rio também. Nas outras vezes a pessoa vai embora sem sequer olhar para mim e fica tudo por isso mesmo.
Então é isso. Esta é minha primeira carta de amor a você, meu amor.
Já te aviso que não vou me lembrar de datas importantes como o dia que você me pediu em namoro ou o dia do seu primeiro “eu te amo”, quando ele acontecer, é claro.
Espero que depois das explicações, isso nos aproxime ainda mais.
Ufa, falei… E sou louca por você, Cacilda… Eduardo… Tijuana?
guida.ribeiro
pedaços grandes de ar
Com a cara toda para fora da janela do carro, Geraldo lambia o vento vorazmente, como se pudesse.
- Que gosto tem o vento, cachorro? – Perguntei em voz alta, quase gritando, afinal fica um barulhão no carro quando a janela está aberta.
Mas Geraldo fazia que não me ouvia. Parecia uma grande diversão abocanhar pedaços grandes de ar.
Apelei:
- Te trago junto para poder conversar com alguém… Sabia?
Mas, nada. Alguns cachorros parecem viciados nesse treco de ficar com a cara para fora da janela num carro em movimento, como se estivessem voando, sei lá. É quase tão hipnotizante quanto morder carteiros, acho.
Apelei mais fundo:
- Vou jogar fora todo Arak que encontrar em casa!
E assim, o cão voltou para seu banco, me olhando com olhos espremidos.
- Fala que eu te escuto, Guiga.
É engraçado ter um cão como Geraldo. Ele é atrapalhado, ou talvez, atrapalhador, mas tem um bom coração, uma doçura quase que inocente. Apronta muito, me deixa louca, mas é um cão magnífico. E eu ali olhando aquele bicho felpudo no banco da frente, me senti dona do mundo. Não por simplesmente ter um fanfarrão de pelos brancos por perto, não só por dividir minha vida com um ser que muita gente nem acredita que existe de verdade por ser tão especial, mas por poder viver isso tudo. Viver de verdade esses momentos.
Ele tinha até arranjado um lindo enfeite de Natal para porta, lindo mesmo.
- Se você não falar alguma coisa e não parar de me olhar com essa cara de boba, Guiga, eu vou voltar para a janela.
- Eu estou apenas pensando em coisas da vida, Geraldo. Coisas bonitas e profundas do viver. Você deveria fazer isso de vez em quando também.
- Ora, Guiga. Você não entende que com todo aquele vento lá fora é difícil pensar em profundidade aqui?
- Ok, então, vamos brincar de alguma coisa.
- Tá bom, Guiga. Vamos brincar de “quem é trouxa”?
- Como é essa brincadeira, Geraldo?
- É um jogo de perguntas e respostas. Geralmente quem pergunta é trouxa.
(…)
- Você não vai falar mais nada, Guiga?
- Você é trouxa.
- Por que?
- Porque você perguntou. Tem outro jogo?
- Não tem mais jogo, não, Guiga.
- Ok.
(…)
- Vai ficar assim? Sem falar comigo, Guiga?
- Trouxa, de novo. Perguntou de novo! Há, há, há…
- Não tem graça.
- Claro que tem graça. Há, há, há… Pelo menos eu, pra variar, estou rindo.
- Vou voltar para a janela.
- Ah, Geraldo, brincadeirinha… Fica aí. Ah, e fica quieto. Tem blitz policial ali na frente.
- Eita, jura? Deixa eu me esconder.
- Por que, Geraldo? Fica quieto aí, vai chamar a atenção dos guardas e…
Mas não adiantou nada dizer para o cão se comportar. Ele pulou para trás, fez o maior estardalhaço, depois pulou pra frente de novo, com um lenço rosa na cabeça e todo embrulhado em uma jaqueta minha. Azul. Ao menos fazia uma bela composição.
Porém, naquele momento olhei para o lado, aterrorizada, enquanto o guarda fazia sinal para eu parar. Fui encostando o carro enquanto lançava um olhar de total desaprovação para o cachorro esquisito ao meu lado.
O policial, um jovem magro de cabelos negros, fez sinal com as mãos para que eu abaixasse o vidro. E foi o que eu fiz um tanto nervosa.
O jovem se abaixou um pouco e enquanto olhava Geraldo como se tivesse o monstro do lago Ness ao meu lado, e disse quase como se estivesse assustado:
- O que é isso aí?
Eu olhei para o policial, olhei para Geraldo que agora fingia lixar as unhas, (onde ele teria achado aquela lixa?), e olhei novamente para o policial, que agora já parecia recobrado do susto, e renunciava a sua pergunta anterior, fazendo outra:
- Senhora, estamos fazendo a campanha, “preciso beber alguma coisa”, ah, quero dizer, “direção segura”, isso, campanha “direção segura”.
O homem estava visivelmente afetado pela cena ridícula que presenciava. Ou estava bêbado. Talvez eu nunca saiba.
- Senhora…
- Ok, eu entendi, seu guarda. O que preciso fazer?
O policial agora olhava bem em meus olhos e olhou para Geraldo em seguida, com visível medo. Intercalando um sorriso sem sal e a vontade de dizer algo bem estranho para mim. Eu sentia isso. Uma mulher sempre sabe.
- Por favor, dona…
- Ok, seu guarda, eu estou ouvindo.
E foi nesse momento que o rapaz, cheio de si, veio para cima de mim com um treco preto, parecendo um daqueles telefones antigos de carro que a gente vê em filmes americanos bregas e antigos.
- A senhora se importa de fazer o teste do bafômetro?
Meu primeiro pensamento foi tentar fazer a conta das horas que haviam se passado desde a última vez que eu tinha bebido. No nervosismo achei que dava algo entre dezesseis horas. Ou talvez trinta minutos. Olhei para Geraldo novamente, e ele estava agora lendo um folder de venda de apartamento. De cabeça para baixo.
Voltei para o rapaz de cabelos pretos e disse:
- Seu guarda, eu posso pensar? – falei aquela frase idiota olhando bem nos olhos do moço que segurava o equipamento preto a minha frente como se aquilo o pudesse proteger de nós, eu e Geraldo, um cão disfarçado de gente, lendo um folder de ponta cabeça.
Como o homem não dizia palavra, continuei:
- Então, se eu puder pensar vou saber se aceito ou não. Faz sentido?
O homem fardado, num repente de sobriedade disse com voz grossa:
- Senhora, nem tudo na vida precisa ter sentido. Alguém com um cão como o seu devia bem saber disso.
Fazia sentido.
Num supetão disse Geraldo com voz de urso (hibernando) para não ser ouvido pelo policial:
- Guiga. A não ser que você tenha levantado durante a noite, faz quatorze horas que você bebeu pela última vez. Faz logo esse teste e vamos embora.
Então, assim que eu disse “ok, eu faço o teste, afinal a gente tem que ter féééé…” o homem tirou o aparelho da frente da minha boca, levou para perto dos seus olhos e disse:
- Ótimo. Deu zero, senhora. Está aprovada. Pode ir em paz. Tenha um bom dia.
Saí olhando pelo retrovisor quando o guarda fazia gestos estranhos e falava com um colega apontando meu carro.
- Vamos logo, Guiga. Que droga. – Esbravejou Geraldo tirando o lenço rosa da cabeça.
Fomos nos distanciando do local, e eu sem conseguir concatenar os fatos. Resolvi perguntar, enfim, para o protagonista da cena:
- Geraldo, me diga, o que aconteceu lá atrás? O que diabos foi aquilo tudo?
O cachorro olhava para mim e para o vidro e lançou a pérola:
- Me deixa ficar na janela se eu responder?
Eu não tinha muita alternativa senão topar.
- Ok. Deixo. Mas vai contando o que aconteceu.
E num zapt, enquanto abria a janela e colocava a cabeçona para fora:
- Eu achei que eles estavam atrás de mim pelo enfeite de Natal que eu roubei do seu Anastácio do 81.
guida.ribeiro
a melhor do mundo
Ela é a mulher mais incrível que eu conheci. Incrível é pouco. Iluminada. Passei minha infância e adolescência ouvindo meus amigos dizerem que gostariam de ter uma mãe como ela. Sempre me orgulhei disso e sorria, às vezes escondida na cara de rebelde sem causa, às vezes mostrando feliz todos os dentes.
Quando vamos juntas pela rua ou por lugares que ela costuma frequentar, é como se fosse um imã. Todos a querem abraçar, cumprimentar e dizer alguma coisa, como um agradecimento por algo que ela tenha feito, ou por simplesmente agradecer aos céus por ela existir.
Nossa vida não foi lá muito abastada de dinheiro. Na verdade, em certos momentos nem um pouco, mas tivemos o amor dessa mulher. Nós três. Eu, meu irmão e meu pai. Amor incontestável, atemporal, enorme. Amor de exemplo, de doação, de submissão até. Amor completo.
Não sei se já sei amar, acho que estou apreendendo, mas tenho certeza que o mais importante que eu sei sobre esse tema, foi com ela que aprendi. Arrisco dizer que isso vale para meu irmão e também para meu pai.
Uma das coisas boas de envelhecer é ganhar lucidez. E eu tenho muito mais disso hoje que já tive com meus vinte e poucos ou até trinta e poucos anos. E a lucidez é gozadora. Ela te invade, dá prazer, mas dói. E depois dói e dá prazer. Como tudo que faz a gente aprender na vida.
Mas, como tudo que faz a gente aprender, é boníssima. A lucidez nos move, nos faz crescer com calma. E foi ela, ela mesma, a lucidez, que me fez ver que minha heroína é ser-humano. Tem fraquezas, tem dores, solidões.
Mas a mesma lucidez me diz que minha heroína nunca vai deixar de ser heroína. Nunca vai deixar de ser a mulher mais incrível que eu conheci nesta vida, nunca vai deixar de ser a melhor.
A melhor do mundo.
guida.ribeiro
também
09/03/2011
queria você comigo, de dia, bem cedo, tomando café
queria você comigo andando na rua, como quem nada quer
queria você dormindo a noite, queria acordar com você
queria te abraçar forte agora
e um monte assim de querer
queria poder sentir as costas da sua mão, bem de leve em meu rosto
e também as batidas de seu coração em meu peito, de novo
queria poder ouvir a sua voz me contando que dormiu no trem
queria ouvir da sua boca, depois de um beijo,
te amo também.
guida.ribeiro
ok, nem tudo é verdade
Caríssimos leitores e amigos, (não que um não possa ser o outro) são praticamente a mesma coisa…
- Guiga, pare com subterfúgios.
- Subterfúgios, Geraldo? Eu nem sabia que você conhecia essa palavra…
- Vai, faz logo o que você tem a fazer!
- OK, Geraldo, eu prometi que faria, e aqui estou eu, fazendo:
Caríssimos leitores,
Venho hoje aqui, em carta ao público, para dizer que o último artigo deste blog, em que eu citava Geraldo fazendo coisas não muito católicas, como subornar o porteiro com esfihas e colocar remédios na minha bebida, não era verossímil.
- O que quer dizer isso?
- Como você consegue saber o que significa subterfúgios e não sabe o que é verossímil, Geraldo?
- Ora, já cheguei no S no dicionário, mas não cheguei no V.
- Ok. Verossímil é verdadeiro. Verdade. Papo sério. Um coisa “mil grau”. Entendeu agora?
- Entendi. Prossiga.
Então, queridos leitores, aquele texto, como alguns outros aqui neste blog, foi um tanto fantasioso.
- Muito fantasioso, Guiga. Eu jamais colocaria um remédio na sua bebida.
- Sim, eu sei, Geraldo. Você jamais faria isso. Desculpe-me, sim?
- Desculpo.
- Obrigada. Você até que é um cachorro compreensível.
- Sou.
- E nobre.
- Mais ou menos.
- É isso… Hein? Por que mais ou menos?
- Não vem ao caso, Guiga. Agora que você já avisou aos leitores que era fantasia…
- Hum. Te conheço, cão. O que é que você está me escondendo?
- A parte de mandar a saia pro seu chefe. Na verdade… Eu mandei mesmo.
- O quê? Você está falando sério, Geraldo?
- Sim, mas tudo bem.
- Como assim, tudo bem? Que loucura é essa, Geraldo?
- Tudo bem, sim.
- Por quê?
- Ele gostou.
guida.ribeiro
churrasco e futebol
CHEERLEADERS
QUINTA-FEIRA, OITO DA NOITE.
- Guigaaaa! Isso não se faz.
- O que foi, Geraldo? Seja rápido, não me atrapalhe, sim? Estou assistindo Bonanza.
- Ah, Guiga, eu fiquei ontem aqui esperando você chegar pra me levar no futebol e nada…
- Puxa, Geraldo, eu não sabia que você queria ir.
- Mas eu falei pra você, Guiga, você sabe que eu gosto de churrasco… Fiz até uma sainha plissada para torcer.
- Ahã…
- Dá pra parar de ver esse filme dos infernos e prestar atenção em mim?
- Ah, sim… Como é? Você fez uma saia? Que história é essa? Desde quando você faz alguma coisa, Geraldo? Passa a coca zero aqui…
- Pois eu fiz. Uma sainha pra gente torcer pros meninos do seu trabalho. Tipo “tears leaders”
- A gente torcer? Eu não ia usar saia nenhuma. E sai da frente que eu quero ver o Little Joe.
- Ok, eu usava então. O importante é torcer. Mas você não veio me buscar.
- Desculpe-me, Geraldo. Acabei me atrasando, não deu pra vim te pegar.
- Tudo bem. Vai ter volta.
- Oi?
- Vai ter volta, eu disse.
- Tá bom. Ah, e o certo é Cheerleaders.
.
A VOLTA
SEXTA-FEIRA, NOVE E QUARENTA DA MANHÃ.
Priiiiii
Priiiiii
Priiiiii
- Uaaahhh. Nossa, que sono… Geraldo, atende o interfone, querido.
Priiiiii
Priiiiii
- Ô, Geraldo, tá surdo? …Ué, cadê o cachorro? Geraldooooo? Cadê você?
(…)
- Não está na área de serviço, não está na sacada… Coisa mais engraçada. Geraldo nunca sai de casa de manhã antes de mim. O que será que aconteceu?
Priiiirrrriiiiii
- Ahhlô…
- Alô, Dona Guida? Bom dia.
- Bom dia, Zé. Algum problema?
- Não, Dona Guida.
- Que bom. E você me ligou aqui essa hora pra que, então? Tem alguma coisa na portaria pra mim?
- Não Dona Guida, eu só estou ligando porque deu o tempo da ambulheta.
- Ambulheta? Que ambulheta, Zé? Você tem certeza que está bem?
- Eu estou ótimo, Dona Guida. Mas a senhora está com uma voz de sono, não é?
- Pois é, Zé, eu estou com sono… Então me diz logo sobre o que você está falando.
- É seu cachorro, Dona Guida.
- Ah, o Geraldo, eu deveria saber… O que tem ele, Zé?
- Ele passou hoje aqui e deixou essa ambulheta. Disse que era para ligar para a senhora assim que a areia caísse toda pra baixo, aí, quando a senhora atendesse, eu virava ela de novo, o que eu acabei de fazer, e contaria os segredos apenas quando toda a areia caísse agora do outro lado.
- Ah, você quer dizer uma ampulheta?
- Ele disse mesmo que a senhora saberia do que se trata.
- Não, Zé, eu não sei do que se trata. Fale-me logo, daqui a pouco tenho que trabalhar…
- Então, quando a senhora falasse isso eu deveria girar a ambulheta de novo, assim… E começar tudo do começo.
- Zé, o Geraldo é completamente maluco… Que segredos são esses, afinal?
- Ele disse também que se a senhora o insultasse de alguma forma que era para eu virar de novo a ambulheta, assim.
- É ampulheta, Zé. Ampulheta!
- E disse que era pra virar de novo se a senhora ficasse brava…
- Ok, Zé. Já entendi. O que devemos fazer agora? Esperar a “ambulheta” terminar?
- Isso. Só assim a senhora saberá os segredos.
- Posso perguntar uma coisa ou você vai virar esse negócio de novo se eu perguntar?
- A senhora já está perguntando… Mas eu não vou virar por isso.
- Quanto falta para terminar, Zé?
- Bem, se a senhora perguntasse isso, eu…
- Já sei, viraria a ampulheta de novo do começo.
- Isso. Assim.
- Então, só me resta esperar, não é mesmo?
- É.
(…)
- Quanto o Geraldo está te pagando para esse servicinho, Zé?
- Cinco esfihas.
- Eu pago dez para você parar com essa besteira e me dizer o que é o tal segredo.
- Fechado, dona Guida. São na verdade dois segredos e um PS, ou melhor, três…
- Ai, meu Deus, Zé, diga-me logo isso aí, vá.
- Espera um momento que eu tenho que ler esses garranchos horríveis do Geraldo. Ele diz aqui:
Segredo número 1: Guiga, esperar é chato, não é?
Segredo número 2: mandei em seu nome uma caixa de saias plissadas da ZARA para os jogadores de futebol do seu trabalho. Pode ficar com o mérito… Ah, aquela que eu fiz, a rosinha, mandei pro seu chefe.
PS1: a conta das outras chegará em breve.
PS2: estou de mau.
PS3: você já se deu conta que passam das 10h e ainda não foi trabalhar? Pois é, sabe aquele seu remédio da alergia que te dá muito sono? Coloquei três na coca zero ontem. Bom dia.
guida.ribeiro
abrigo anti-solar
Dia 4
Ah… Entendi. É só pensar que as letras saem. Estou aqui há quatro dias e não tinha entendido nada…
Magnífico esse treco.
Dia 15
Ok. Agora consigo concatenar as ideias. Você não imagina como é difícil controlar os pensamentos para que eles virem algo inteligível e as letras se formem de maneira correta…
Passei mais de dez dias para conseguir isso.
Estou dentro do que parece um abrigo anti-solar em um planeta distante do meu. Presa, não com grades, trancas, correntes ou tornozeleiras eletrônicas. Apenas presa, mas com uma liberdade indescritível. É que nesse planeta meus pensamentos são as possibilidades, ou seja, eu tenho o que eu quiser aqui. É como se eu tivesse achado um gênio da lâmpada, só que com direito a infinitos desejos. Posso pedir quase tudo que eu quiser com “telepatia comercial”. Eu penso de um jeito específico, a coisa se materializa num pedido e em poucos minutos a FEDEX entrega, simples assim. E posso fazer praticamente qualquer coisa que eu quiser aqui. A única coisa que não posso fazer é sair do abrigo. Tem avisos em todos os lugares. “NUNCA ABANDONE O ABRIGO – RISCO DE MORTE”. Melhor respeitar.
Por todos os lugares também há botões. São botões vermelhos com a inscrição “FORA”. Eu vou usar um deles quando eu quiser voltar para casa. É só apertar. E tem um a cada metro quadrado. Coisa impressionante.
Aqui não tem telefone nem internet. Nem água encanada. Nem água sem ser encanada. Mas tem uma tecnologia danada de comunicação… Por exemplo, além da tal “telepatia comercial”, estou transmitindo esse meu relato direto para mim em meu planeta. Eu não estou exatamente lá agora para recebê-lo, mas mesmo assim, vou receber quando estiver. Dá pra entender?
Nem eu.
Dia 16
Tudo aqui é fabuloso. Nunca vi um lugar em que tudo funcione assim, tão perfeitamente.
Perfeitamente.
Perfeitamente.
Perfeitamente.
Perfeitamente.
Perfeitamente.
Perfeitamente.
Dia 17
Aqui tem dois sois que se revezam. Um que brilha de dia, outro, de dia também. Então, lógico, não é possível fazer programinhas noturnos, baladinhas, ou sessão maldita no cinema… Aqui também não tem cinema.
Dia 18
A tristeza veio. Parou bem do meu lado. Olha agora para mim com cara de mulher mal amada, ou pior, com cara de prima da mulher do tio distante que não entende meus gostos e me trás doce de feijão para agradar.
Dia 19
Dei por mim: ninguém me a…
Dia 19
Dei por mim: ninguém me am…
Dia 19
Dei por mim: ninguém me…
Dia 19
Dei por mim: eu não amo ninguém.
Ah, Funcionou, é?
Dia 19
Funcionou.
Dia 20
Todos os dias peço um prato diferente no almoço e outro no jantar. Já não tenho mais muitas ideias. Vou pedir McDonalds. BLUP. Pedido negado? Ah, em falta… Claro, eu devia saber, os aliens adoram.
Dia 21
Caminho todos os dias pelo abrigo, às vezes corro. Os tênis trazidos pela FEDEX são bons. Acho que já emagreci os quilos que ganhei desde que cheguei aqui.
Talvez não.
Dia 22
Às vezes é assim, me dá uma felicidade sem motivo. E a FEDEX não tem nada a ver com isso.
Dia 23
Saudade.
E não sei mais que coisa pedir.
Dia 24
No meu planeta eu tenho amigos, família, tenho sorrisos, festa, acho que todo tipo de amor;
Tenho trabalho, algum dinheiro, tenho até um pouco da necessária dor;
Tenho comida que eu mesma faço e sorrisos de falar besteira…
Tenho calor, energia, (sol que não mata tanto), sucesso, flores, cachorros de rua, a vida inteira; Tenho a música do mundo, o café com leite de manhã, o Monumento das Bandeiras,
A Vila Madalena, a 23 de Maio…
No meu planeta tem noite.
Dia 25
… E eu vivi até hoje em um imenso ensaio.
Dia 26
O sol aqui parece ter cara. Não que eu olhe pra ele, mas é que eu sei que ele está olhando pra mim… Uma mulher sempre sabe. E ainda por cima sorri, o desalmado.
Dia 27
Ainda não estou pronta para voltar para casa, mas uma coisa eu sei: não vou jogar xadrez comigo mesma nunca mais.
Eu trapaceio.
Dia 28
Desde que cheguei aqui pensei em 100 coisas que podem realmente me fazer feliz. Tenho certeza, foram 100. Agora estou aqui, contando, contando… E só me vêm à mente 99.
- Quem roubou minha coisa?
Dia 29
Ontem faltou luz. Fiquei o dia inteiro pensando na coisa.
Dia 30
Parei de pensar naquela tal coisa quando percebi que tinha me esquecido das outras 99.
Aqui não tem noite.
Dia 31
A fatura da FEDEX chegou, mas que pena, não pude pagar.
Acabei de apertar sem querer o botão FORA.
…
guida.ribeiro de volta.
dos bons
Algumas pessoas pensam que são Deus.
Algumas são.
Pessoas inteligentes podem ser muito burras…
Pessoas importantes muitas vezes vão embora.
É impossível rejuvenescer, provavelmente desde o Big Bang.
Não somos donos de nada, nem de nós mesmos, e o que é que tem?
Como pode ser tão difícil entender se é também tão difícil esquecer?
Talvez o que nos sobra seja apenas a consciência de não saber.
Manobristas não lavam a mão.
Alguns silêncios soam a mim como um rojão.
A felicidade às vezes vem, assim, do nada.
E se instala dentro da gente, por entre os órgãos, pele, músculos.
Quando uso chinelos, topo com o dedo na calçada,
E sou feliz, mesmo quando ando por aí em círculos.
A cidade, ainda que horrível, é linda,
Meu coração está aqui, ainda.
Algumas coisas são tão simples e pensamos nelas como se fossem ciência de foguete.
O amor é um incidente.
Dos bons.
guida.ribeiro
Amor é amor!
Apesar do nome do blog, de algumas brincadeiras escritas aqui, eu acredito no amor. Acredito em energia e paz, acredito em Deus, acredito em ET, acredito em mim, acredito em você.
Seja lá o que tudo isso for, eu acredito.
Viver é bom. Aproveitemos, então.
Beijo,
guida.ribeiro
AH… O amor (amor?) – micro contos vol.4
No amor algumas pessoas, só algumas, gostam de tripudiar. Outras adoram.
O amor é um bichinho lindo… Que, às vezes, faz cocô no lugar errado.
Frase provável de se ouvir de várias pessoas durante sua vida: “eu te amo pra sempre e nunca vou te largar”.
Se um de nós morrer eu vou para Paris, se não tiver passeata nem vulcão ativo por lá.
Amor não tem idade, quem tem idade é a gente.
Eu te amo. Acho.
guida.ribeiro
poema imagem vol.2
Este eu fiz faz algum tempo quando participava de um workshop super bacana sobre poema e tive contato com e.e.cummings
enjoy,
beijos
guida.ribeiro
… estamos em construção de um mundo melhor
Pessoal, nos desculpem pela ausência. Geraldo e eu estamos trabalhando para um mundo melhor.
Em breve estaremos de volta com nossos artigos semanais.
beijos,
guida.ribeiro & Geraldo
sapato amarelo
Aí cheguei com o maior sono em casa. Começa assim mesmo.
Decidi não dormir dessa vez. Estava com fome.
Saí de casa caminhando em direção ao japa. Um japa mal servido dos infernos. O garçom parecia não estar ali. Olhava-me como se eu tivesse que atendê-lo e não o contrário, e não me trouxe o cardápio! Demorou tanto para entender que eu queria um cardápio que desisti. Lembrei-me do que minha mãe diz sobre os Ribeiros: Nós não podemos passar fome que ficamos insuportavelmente irritados. Decidi ir ao japa de baixo (por sorte há um na esquina de baixo). Só que o japa de baixo é chique. Os pratos custam duas vezes mais. Mas eu estava com fome demais para pegar o carro, o trânsito e essas coisas para ir até a Vila Madalena. Fiquei no chique mesmo.
Depois de apreciar alguns bons pedaços de peixe, saí de lá 67 reais e 50 centavos mais pobre. Ou menos rica, escolham.
Ainda estou irritada, embora tenha saciado a fome dos Ribeiros, outra pequena faceta da família me pegou: Torci o nariz depois de pagar tanto por um jantar.
Pagar R$ 67,50 por um jantar não só me faz torcer o nariz como também me faz pensar na vida. No caminho de volta pensei que não ia mesmo mais casar com ninguém; que a Adele é incrível, mas era eu quem devia ter feito aquela música; que o doce do café da esquina estava uma droga; que eu tinha de trabalhar menos; que eu devia comprar um cachorro e um bambolê.
Com vontade de xingar uma moça que estava jogando videogame no ponto de ônibus, só por que ela estava com um sapato amarelo, tive o mais lúcido de todos os insights em três letras:
TPM.
guida.ribeiro
empreiteiros, cadê? – micro contos vol.3
O amor é uma construção… Fica bem mais fácil quando você tem uns trinta caras dispostos a ficar rebocados de cimento do cabelo ao pé.
O amor é uma construção? Sim, e para você ter uma fração, precisa pagar uma parcela inicial, prestações salgadas e intermediárias eróticas… Aí consegue as chaves (depois de meses do tempo originalmente combinado).
O amor é uma construção! E quando você descobrir que colocou as tomadas em lugares errados vai ser tarde demais.
O amor? Ora, é onde moramos.
guida.ribeiro
quem sabe
o primeiro beijo pode dar certo
se não o primeiro, o segundo, o quinto, o décimo
aquele desejado depois de tantos calados
ou perdidos como uma ligação que cai
há o beijo que deixa os outros invisíveis
há também aquele rápido, que sem ser um fato
não liga, não tem gosto ou formato
já o beijo bom sempre tem formato
e pode ser roubado, perdido ou simplesmente incerto
contanto que nos tire dos sapatos
nos tire os ombros de um mundo chato
ficando em nossos lábios como batom que não sai
o primeiro beijo deu certo
agora (quem sabe) temos todo o resto
guida.ribeiro
ME, YO ou EU
Eu sou. É isso. Vou dizer. Chega de viver na clandestinidade. Já tenho idade. São algumas décadas de vida. Não é brincadeira. Chega. É hora de dizer o porquê de eu estar aqui no mundo.
Vocês acham que é fácil ficar nessa de fazer umas coisinhas aqui, outras ali e só um grupo de cinquenta, cem pessoas, no máximo, saberem? Não é justo. Não é justo para mim, não é justo para vocês, não é justo para minha mãe, que sempre sonhou em ter ao menos um filho médico. Não teve. E isso não vem ao caso…
Como eu dizia, é hora de virar a baiana, rodar a mesa, ou alguma dessas coisas que a gente faz quando chega a hora. Isso mesmo, chegou a hora, e aí vai:
Eu sou escritora, gente! Escritora.
Sou. Não me envergonho disso. Tenho até orgulho. Penso em fazer uma passeata em prol do orgulho do escritor. Imaginem, milhares e milhares de pessoas, unidas a seus laptops, netbooks, bloquinhos de anotação, ipads, descendo a Consolação com bandeiras e cartazes de várias cores e modelos:
SOU ESCRITOR, GRAÇAS A DEUS, ou,
ESCREVO, NÃO NEGO, GANHO DINHEIRO QUANDO PUDER, ou ainda,
ESCREVER NÃO É PECADO, O PECADO ESTÁ NA CABEÇA DE QUEM LÊ!
Desculpe se ofendo alguém, se barbarizo por dizer isso aqui, mas acho que na verdade nasci assim. Desde que me conheço por gente gosto disso, escrever. É o que eu sou e o que eu consigo ser. Tudo sempre me levou a isso, não vou mais evitar. Sou.
No começo a gente tenta negar, sei lá, pensa em ir por outro caminho, acredita que é uma fase, e que no fim pode acabar sendo outra coisa: gerente de banco, manicure, farmacêutico, administrador de empresas… Mas não tem jeito. Pelo menos no meu caso. Eu escrevo. É isso.
Eu sou escritora.
Pronto. Falei. Ufa, precisava.
Agora que me declarei aqui, sem pudores para todos, vou escrever um livro e adotar dois nenês gêmeos.
guida.ribeiro
PS: Ajude uma escritora que acaba de se declarar como tal. Se você gosta dos meus textos, indique a seus amigos, se não gosta, indique a sua sogra. Obrigada.
feijoada
Quinta-feira, hora do almoço. No caminho para o Bar do Chico passamos em frente ao Hotel Aeroporto, um hotelzinho de esquina cuja dona é uma cadela. Lurdes. Uma cadela de pelos brancos com manchas pretas, coleira, e unhas que fazem TEC quando batem no chão. Essas coisas de cachorro. E Lurdes não estava na calçada porque tinha ido a uma convenção. Convenção de hotéis para cachorros. É o que nós sabemos.
Plínio, é dono da Oficina Aeroporto Car, que fica perto do hotelzinho. Assim como Lurdes, Plínio é um cachorro, de pelos brancos também, só que sujos. Ele nunca vai a convenções, prefere ficar ao sol, de pernas para o ar, coçando as costas, em frente a sua oficina. Nós sabemos.
Rubens é uma pomba cinza. Ele não gosta de ser pomba, no máximo aceita ser um pombo, mas ninguém nunca se lembra de fazer esse ajuste de gênero e fica “a pomba” mesmo. Ele é o segurança da Academia de Ginástica Aeroporto, que fica também nos arredores. Rubens vive dizendo por aí que vai se formar em dromedário. Ele acredita que essa capacitação lhe garantirá mais respeito e dinheiro, pois dromedários são muito mais espertos e asseados que pombos. Nós sabemos que ser dromedário não se aprende na escola e que não tem o menor sentido se formar nisso, mas Rubens não ouve ninguém. Não tem orelhas.
Comemos uma bela feijoada no Chico e ninguém no bar entendia por que serviram aquele prato na quinta-feira. Nós sabemos.
Na volta passamos, com sono, pelo mesmo caminho. Na frente do hotelzinho, Lurdes brigava com seu motorista enquanto saía do carro, “Era para me levar na convenção de hotéis, para cachorros, Oswaldo, e não na convenção de hotéis para cachorros”. Na oficina não tinha ninguém, nem carro, nem Plínio. Ele estava mais adiante, em frente à academia, de pernas para o ar, enquanto um dromedário a sua frente dizia: “eu é que não vou comer hoje lá no Chico, eles estão servindo a feijoada que sobrou de ontem”, e rematou, com ar de desprezo: “vai tomar um banho, Plínio”.
guida.ribeiro
bom dia, Brasil
Sexo é vida.
Acordo quase todos os dias ouvindo essa frase em meio a desgraças do jornal da manhã. O locutor tem razão. Além de ser vida, algumas vezes ele é o responsável por uma nova.
Sexo é bom quando a gente faz. Sexo é bom quando a gente tem. E tudo bem. Embora, particularmente eu seja do tempo em que ex-mulher era só um problema financeiro, hoje pode ser o Marcos que já foi Suzi, mas é bom também. O Marcos, a Suzi, todos eles. Pessoas bacanas.
Conheci um cara, Clécio, que tinha uma caderneta. Nela uns nomes e algumas preferências anotadas. Ele ligava para Ângela quando queria uma coisa mais tórrida, ligava para Cleusa, quando pensava em algo mais “boa moça” e assim ia. Fico pensando na caderneta do Clécio. Que bom seria se todo mundo tivesse uma. E vou mais além: que bom seria se a gente pudesse estar em algumas cadernetas por aí. O problema é que tem gente que acha isso um absurdo. Mas, sexo é vida, por que seria um absurdo viver?
Eu sei que no fim de tudo, o que todo mundo quer é amor. Então, façamos sexo no começo! Além do que, vamos lá, sexo é um tipo de amor, seja ele o que for, com quem for, como, onde, quantas vezes for. Pelo menos pode ser.
“Ora, mas que pouca vergonha”, dirão os conservadores, “isso, me usem, me usem”, dirão os preservativos, e “ora, mas que papo chato”, dirão os que nunca fazem sexo.
Sexo é vida, e o Boston que se intitute.
guida.ribeiro
crônicas com gelo e limão
- Geraldo, onde está o salmão que eu comprei para o almoço com meus pais? Geraldo, cadê você? Ué, tá no quarto, escrevendo?
Meu nome é Geraldo. Sou um cão. Falo. Escrevo. Penso (?). Existo. Tenho fã clube. Trabalho. Faço coisas legais.
- Que raio de “faço coisas legais” é isso aqui, Geraldo?
- Ah, Guiga, você tinha deixado eu usar o computador hoje, lembra?
- Eu sei, Geraldo. Eu deixei mesmo. Mas o que é isso que você está escrevendo aqui?
- Ah, não vem dar palpite na minha crônica.
- Crônica?
- É. Adoro crônica. Principalmente com gelo e limão.
- Crônica com gelo e limão?
- É, Guiga. Agora passa pra lá que eu preciso escrever, senão vou perder o momentum literário.
- Há, há… Geraldo. Você é um barato, mesmo.
- Chhh. Agora silêncio que eu vou continuar. Se quiser ficar aí, fica quietinha.
Como eu dizia. Faço coisas legais, como por exemplo… xingar pessoas que passam lá embaixo.
- Você faz isso, Geraldo?
- O que? Xingar? Claro. Você não faz?
- Sim. Às vezes no trânsito, mas não quem passa lá embaixo.
- Por que, Guiga? Qual a diferença entre os que passam lá embaixo e um cara no trânsito?
- Toda a diferença, cachorro! O cara no trânsito não ouve quando eu xingo, porque eu xingo baixinho e o vidro geralmente tá fechado…
- Ah, detalhes, Guiga. Deixa eu continuar com a crônica.
Uma vez xinguei uma freira.
- O quê? Geraldo, você tá maluco? Xingar freira?
- Ah, Guiga. Qual o problema. Elas são filhas de Deus igualzinho a você e eu.
- Meu Deus do céu, Geraldo…
- Para de falar, Guiga. Preciso de foco.
Xinguei a freira e ela não ouviu. Xinguei de novo mais alto: “Ô seu pinguin gigante, vá pra alguma geladeira de Itu”, eu disse.
- Geraldo. Por que pinguim com N?
- O meu pinguim é com N, oras. E você não está me deixando escrever, Guiga.
- Ok, vou ficar caladinha.
A freira carregava uma mala de jerimuns e usava sandálias de couro cru. Obviamente era alemã ou algo assim.
- Alemã?
- SCHHHH!
Olhou para cima e eu me abaixei rapidamente na sacada. Não adiantou nada porque a sacada é toda vazada. Ela me viu. E, ao invés de seguir em frente, parou. Parou e ficou olhando para mim. Ficamos por alguns segundos naquela situação estranha. Eu ali, abaixado no parapeito da sacada, sem saber onde colocar meu rabo, e ela lá embaixo, no meio da rua, com uma sacola de jerimuns na cabeça.
- E o que aconteceu?
- Hein?
- O que aconteceu, Geraldo?
Depois de alguns segundos vi os jerimuns andando em direção ao interfone do prédio.
- E daí? E daí?
A freira tocou o interfone. Jacomino, o porteiro, ligou aqui. Disse: “Seu Geraldo, a Dona Guida está?” E eu fui logo dizendo ”não tem ninguém aqui com esse nome”, fazendo voz de urso, claro. Jacomino disse então, “não tem ninguém aí com que nome? Geraldo ou Guida?”. E eu, ainda com voz de urso, respondi “não tem ninguém aqui com nome nenhum, Jacomino”. Foi quando o porteiro soltou um pequeno grunhido, e disse com seu peculiar sotaque carioca, “orassss, se não tem ninguém aí com nome algum, estou falando com quem? E como o senhor sabe meu nome, seu Geraldo?”. Depois de alguns segundos eu respondo “Jacomino, é o urso do cabelo duro aqui. Não me enche.” E já ia desligando quando Jacomino lança sua pergunta fatal carregado no sotaque: “Seu Geraldo, ou melhorr, seu Urrrso, tem um pinguin aqui querendo vender jerimuinss. O senhor querr comprarr?”
- Nossa, e o que aconteceu depois, Geraldo? Que história mais sem pé nem cabeça…
- É tudo verdade, Guiga. Minhas crônicas representam a mais pura realidade do Brasil.
- E como você se safou dessa, cachorro maluco?
- Bem, Guiga, na verdade, eu não comprei os jerimuns. Chamei o Martin para entrar.
- Quem é Martin?
- O pinguim.
- O quê? Ele era um pinguim mesmo?
- Sim, claro.
- Como claro, parece até que isso é normal. Um pinguim vendendo jerimuns…
- … Pra um cachorro que fala. Isso mesmo. E mandei ele subir.
- Caracas, Geraldo. E depois?
- Ah, tomamos umas grappas e comemos seu salmão. Ou melhor, o dos seus pais.
guida.ribeiro
vaporizador a chip?
Eu queria matar quem inventou esse tal de vaporizador para lavar o chão, carro, portões, telhas, chaminés e afins. Detesto esse barulho rompendo a tranquilidade de meu domingo.
Por que será que o povo adora lavar o chão com essa merda? Ora, desculpem-me, falei merda. Tsc. Tsc. Errado. O certo é cocô. É que se eu falasse que alguém está querendo lavar o chão com cocô iam achar que o sujeito é doente mental. Ou eu. O fato é que o tal treco faz um barulho chato demais. Lembra broca gigante de dentista. Credo!
O domingo tem essa coisa de ser calmo. Principalmente pra gente que mora em cidade louca. É importante ler um livro com o sol batendo na janela, a cortina balançando devagar e você olhar para fora e ver algumas folhas nas árvores balançando também. Sim, árvores são importantes nesse cenário. A tranquilidade é muito mais tranquila com uma árvore por perto. Graças a Deus da minha sala, no terceiro andar, vejo várias. É acalentador acreditar que em 2011 temos árvores pelas ruas de São Paulo.
Lembro-me de um desenho animado que vi da Pantera Cor de Rosa, quando eu era menina. Ela era frentista de posto de gasolina em um planetinha perdido no universo. O cenário era ambientado nos futuristas anos 2000. Para ser exata, era ano 2000 e ½. Esse desenho foi feito em 78, e nele, uma nave enorme parava para abastecer. Nave interplanetária, saca? Foi essa visão da nave enorme abastecendo no ano 2000 que ficou na minha cabeça.
Desde muitas décadas atrás, para muita gente os anos 2000 trariam o futuro tecnológico de naves espaciais rabiscando os céus das cidades. Que viagem, podemos pensar. Será mesmo? É verdade que não andamos no nosso dia a dia em naves que voam pelos planetas e tal, mas andamos em automóveis com ABS, GPS, Airbag, bancos de couro climatizados, vidros a prova de balas, computadores mil de bordo. E as fronteiras que desbravamos na medicina, as doenças que curamos com um chip? Temos milhares de programas interessantes nos zilhões de canais na TV paga, blu-ray, blackbery, i-pod, i-pad, ping pong. Podemos falar com quem quisermos em qualquer parte do planeta e até fora dele (ah, o quê, você não acredita em ETs?). E temos tudo, absolutamente tudo o que quisermos na internet. Agora mesmo, fui atrás do tal desenho de minha infância. Assisti inteirinho de novo. Genial. Chama-se “Star Pink” e dá pra achar fácil no youtube.
Viagem por viagem, o vizinho já parou de lavar o chão, as folhas das árvores balançam bem de leve e a paz reina perfeita.
Pensando bem, não quero mais matar ninguém. Quem sabe o mesmo cara que inventou esse vaporizador dos infernos não tem alguma ligação com o cara do chip?
Vai saber.
guida.ribeiro
um nadinha de realidade
Hoje foi rodízio do meu carro. Ao invés de acordar uma hora mais cedo, calcei meus tênis novos de caminhada esperando que eles fossem bons. Fui andando até a padaria, falei bom dia para o Bené. Olhei com cara de poucos amigos para o atendente que não sabia o que era “o de sempre”. Peguei um taxi no ponto, passei o endereço do Hotel do workshop, não quis conversar com o motorista, ele também não quis. Liguei para minha mãe. Ela estava bem. Liguei para o trabalho. Ele estava bem. O dia estava bom. Sorri algumas vezes. Desci do taxi e apenas perguntei se o trânsito estava melhor ou era impressão. O taxista me lembrou das férias. Dei trinta reais para ele. Nos despedimos. Entrei no hotel, integrei, falei, ouvi, pensei. Tomei café, almocei, tomei café. Ao longo do dia pensei por vários momentos que seria divertido andar até o metrô Santa Cruz do início da Sena Madureira. O workshop acabou, a consultora perguntou o que eu iria levar dali, eu disse “todos vocês”. Na saída vários disseram que iam pegar o metrô comigo. Ninguém foi. Fui eu. Subi a Estado de Israel, passei pelos carros com o sorriso de quem não precisava ficar parada como eles. Andei mais, olhei meus pés, lembrei do que escrevi no blog dias atrás, fiquei chateada porque nem todo mundo gostou, por conta disso, alguém de quem eu gosto não fala mais comigo. Pensei na graça da vida. Pensei no Lacerda que morou na Estado de Israel e no grande amigo que ele era. Foi. Nunca mais falei com ele também. Morreu. Penso agora nas flores que estão nascendo no jardim da casa do Lacerda lá no céu, pois em minha cabeça é isso que acontece quando alguém pensa aqui em alguém que já foi pra lá. Caminhei até a Diogo de Faria, fui subindo até a Jabaquara, andei um pouco mais devagar, tive medo de algumas pessoas que chegaram muito perto de mim, entrei numa loja em promoção, quase comprei uma cafeteira italiana por 24,90. Desisti pela fila do caixa. Saí da loja, pensei no blog, pensei na vida, pensei que devia fazer mais vezes aquilo. Entrei no metrô, procurei um mapa para saber que direção tomar. Fiz baldeação no Paraíso, segui para Vila Madalena num metrô novo. Saí da estação com vontade de falar com um amigo. Liguei para a Denise, chamei ela de bichona, combinamos um possível jantar na casa de uma outra amiga, segui a pé por 20 minutos até meu prédio, o porteiro não me reconheceu sem carro, mas logo consegui entrar no meu próprio apartamento. Tomei banho, fiz um curso pela internet, comi alguns frios e um chocolate e agora estou aqui mostrando um nada de mim. Só um nadinha.
Se fosse fácil mostrar mais, mostraria as saudades do Lacerda. Mostraria as flores do jardim atual dele, lá. Mostraria a falta que sinto da minha família que mora em outra cidade. Mostraria o desconforto que tenho por ter perdido uma amizade, ou um amor, ou os dois, por um mal entendido. Mostraria a energia que senti ao abraçar meus colegas de trabalho hoje no workshop. Mostraria a felicidade que tive por falar com uma amiga ao telefone. Mostraria a lágrima que acabei de tirar do rosto. Do meu. Agora.
E outra. E outra. E outra.
Boa noite. Meus tênis são bons.
guida.ribeiro
pronto
Eu gosto de você, mesmo que faça frio, ou não, eu gosto de você na padaria.
Gosto de você no restaurante por quilo, no Francês ou nos escombros de um daqueles dias.
Gosto mesmo, sem pretensão ou medo, sem cupido, na oração sem sujeito, no poema,
Gosto.
Gosto mesmo, na ilusão, sem freio, ou no estampido de um coração sem jeito, sem beira,
Mas pronto.
Eu gosto de você, mesmo que você não entenda o que era mesmo que você queria.
Gosto de você por um instante que acaba de se estender enquanto dou de ombros às alegorias,
Que, danadas, insistem em tentar nos dizer para onde não ir, como um surdo-mudo ensandecido,
Como se a gente já não tivesse, há muito tempo, por nós, decidido.
Gosto de você porque te vi, gosto de você porque estou aqui, gosto de você porque quis,
Gosto de você porque gosto.
guida.ribeiro
Elementos
Socorro! As pessoas pararam de falar…
Ninguém mais fala. Ninguém mais diz “oi, foi legal ontem” no dia seguinte. Ninguém liga, ninguém diz qualquer coisa, ninguém se expressa. No máximo um texto, via celular, de poucos caracteres: “QUER SAIR?”, ou algo mais hipnótico ainda:
“VOU TER QUE VELAR OUTRO DEFUNDO. NOSSO ENCONTRO = DESMARCADO”
Dârdi.
Ninguém fala o que sente, ninguém fala o que quer, ninguém conta histórias engraçadas, ninguém diz que foram importantes aqueles poucos minutos que alguma coisinha foi feita junto de outra pessoa.
Pessoa? Será que alguém se lembra disso? Gente? Eu não sei, não… Acho que gente está em falta no mercado. Eu, por exemplo, só tenho saído com elementos não muito considerados como gente. Elementos, ué. Da tabela periódica, lembra?
Fui a alguns restaurantes e cinemas com o Tungstênio. O Tungstênio não é um metalzinho qualquer. Tungstênio tem o ponto de fusão mais alto de todos. Duro e denso, um show. Mas, se você pensa que poderá contar com o Tungstênio para algo mais estruturado, como um relacionamento sério, namoro pra valer, esqueça. Ele é bom mesmo para filamentos. Coisinhas finas de nada. Qualquer forcinha a mais, TUNC, o Tungstênio quebra.
Andei experimentando esportes radicais com o Bário. O Bário é um foguete de energia. Um metal que é uma beleza, pois absolve radiação. Sabe aqueles dias do mês em que você está radiante de louca e precisa de alguém que banque sua enlouquecedora e radical radiação? Pois é. O Bário é esse. Só que o Bário é um bandido de tóxico. Dá náuseas, constipação intestinal, dor abdominal. Um terror. Não adianta nada absorver a radiação do mês. Ele vai fazer você vomitar mais cedo ou mais tarde.
Fui também a museus, igrejas e exposições sacras com o Cobre. O Cobre é um dos poucos metais que aparecem em estado puro na natureza. Um santo, praticamente. Aquele metal que todo pai quer como genro. Só que, lembrem-se, o Cobre, na tabela periódica, nunca deixará de ser um Cu.
E é isso, minha gente. Gente? Tem alguém aí?
guida.ribeiro
ser ou estar feliz
Eu estou feliz.
E, invejosos de plantão, não comam seus dedos! (alguns deles são bem necessários, acreditem)… e é isso, não se estilhacem, não. Eu batalhei muito por essa felicidade. E tive o cuidado de dizer “estou”. E, Fe, não vou nem explicar essa.
Sim, me dou ao luxo até de escrever o que eu quiser, e no meio do post falar algo que só uma pessoa vai entender! Isso me deixa feliz pra caramba também.
Como eu dizia, estou feliz, e batalhei muito por isso. Não é assim da noite pro dia que eu consegui ter essa Baden Baden Stout gelada pra beber. Foram anos e anos de trabalho a fio, sapos goela a baixo, dor de cabeça, dor nas costas, dor em todo lugar. Salário baixo, salário ridículo, sem salário. Anos e anos a fio ouvindo merda de um monte de gente, sobre o que é certo, o que é errado, o que é meio-a-meio. Anos e anos a fio de gente cuidando da minha vida, de doze horas por dia de trabalho mal remunerado, de gente entrando e saindo da minha vida como se eu fosse uma estação de trem. Anos e anos a fio de imposições, carro-velho, dívidas, cheque-devolvido, contas pra pagar, planos mirabolantes pra salvar o mundo… Que não dão resultado. E sabe o quê? Ainda continuo com boa parte disso. E estou feliz.
Magia pura? Não, ou talvez sim. A felicidade é o que você quiser. Aliás, a vida é o que você quiser. E com ela, a interpretação ou sensação do que é ser ou estar feliz.
Para o meu cachorro é tomar Arak com o ET Gordo, pegar umas cadelinhas por aí e falar muita besteira. Pra minha mãe pode ser contar um pouco de tudo o que ela viveu, assistir novela, rir de alguma piada que ela inventou com seus oitenta e um anos. Pro meu pai é ver as coisas no binóculo (que é igual ao do Stallone), é andar de bike (sério) e contar os quilômetros rodados, é dormir durante a novela… Ou não. Pra eles dois é saber que eu e meu irmão estamos bem.
Ser feliz é pessoal demais. Por isso eu digo, estou feliz. Eu sei de mim. Estou.
É isso. Ou quase isso. A vida é boa pra caramba!
guida.ribeiro
Onde a gente bebe a vontade
- Guigaaaa, eu quero ir!
- Onde você quer ir, cachorro?
- He he he… Guiga… Quero ir. Eu vou! Tipos Roquenriu… Eu vou!
- Onde, afinal, Geraldo?
- Aquele lugar lá que tá todo mundo falando. Onde a gente bebe a vontade!
- Nossa, onde é isso?
- Ah, sei lá onde é, só sei que todo mundo só fala nisso.
- Então fica difícil. Você não sabe onde é, não sabe nada…
- Eu sei o nome do lugar!
- Que nome é, Geraldo?
- Fechom Whisky.
guida.ribeiro
Poema Interativo – Vol.1
POEMA INTERATIVO Vol. 1
Dane-se o dia, a madrugada, a festa, dane-se o ano inteiro;
Danem-se os ricos, danem-se os feios, o pianista, dane-se o porteiro;
Danem-se todas as outras pessoas do mundo; dane-se a minha tosse;
Dane-se se faz frio, se o coração palpita; dane-se o martelo e a foice;
Dane-se o pouco, a migalha, a fome do racional, dane-se o estresse;
Dane-se o meio, um quarto, um começo, dane-se quem do ônibus desce;
Danem-se as massas, dane-se a cachaça, dane-se a morte do belo;
Dane-se a arte, a graça, o desgosto, dane-se quem não tem credo;
Dane-se a vida, dane-se a partida, dane-se o que os outros pensam;
Dane-se a certeza, dane-se a inveja, dane-se se a idade pesa;
Dane-se o abraço, dane-se o laço, dane-se toda a corrente;
Dane-se se é terça, domingo ou sábado, dane-se o indiferente;
Danem-se os casais, os casuais, os animais, os indecentes;
Danem-se os bons, os bonitos, os boçais, dane-se a gente;
Danem-se os planos, os enganos, as bobagens velhas ou as mais recentes;
Dane-se o passado turvo, o presente puro, o futuro intermitente.
Dane-se a dor da alma, a dor na consciência, dane-se a dor de dente;
Dane-se a compostura, a dor da injúria, a merda que é ser inocente.
Danem-se as ruas, as verdades duras, e dane-se o preconceito;
Danem-se as agulhas, as farpas, as estacas de vende-se fincadas no meu peito;
Dane-se se o sol vai se esquecer de nascer,
Dane-se tudo o que eu não puder dizer,
Dane-se se em mim, ou no contexto não vai caber,
[insira aqui qualquer frase que você quiser].
guida.ribeiro
Geraldo Demanding
Geraldo passou pela frente da TV bem devagar e foi para a sacada. Lá ficou alguns segundos e voltou. Passou novamente pela TV, agora ainda mais devagar, olhando as unhas.
Eu sabia que algo estava no ar, algo estava acontecendo, mas queria apenas ver o cara da novela cair na areia com aquela muleta.
Ele não caiu e eu ainda por cima tive raiva da beleza da atriz, namorada do zé-muleta.
Quando Geraldo ia novamente em direção da TV eu logo fui dizendo:
- Pode parar. O que quer que você tenha pra me falar, fala depois da novela!
O cachorro parou, me olhou com olhos espremidos e disse apenas:
- Dârdi! Quem disse que eu quero falar com você, Guigaaa?
E seguiu para a área de serviço falando baixinho “você nem nunca viu essa novela”
Passaram-se algumas cenas bizarras, próprias de novela, e comecei a ficar com remorso de ter sido ríspida com meu querido cachorro. Então, já entendendo completamente a trama da novela que eu nunca tinha visto, chamei Geraldo.
- Geraldo. Venha cá.
Geraldo vem todo desenxabido com uma revista de palavra-cruzada na mão.
- O que?
- Por que você está todo “não-me-toques” hoje, Geraldo?
- Não tô nada disso, Guiga.
- E o que você quer falar, Geraldo?
O cachorro agora estava sentado no chão e enrolava a revista de palavras-cruzadas um tanto nervoso.
Olhando a cena falei, já um tanto preocupada:
- Geraldo, querido, por que você não fala logo o que te aflige?
- Você está muito sem paciência ultimamente, Guiga.
Aquela frase me deixou tensa. Talvez eu estivesse mesmo sem paciência. Talvez fosse o frio. Talvez fosse a novela. Talvez fosse…
- Hahãn… Guiga. Para de pensar! Você tá sempre pensando ou tá com fome… Vou logo dizer o que foi: Os pelos da ponta de meu rabo estão bipartidos. Pronto.
- Oi?
- É isso mesmo o que você escutou. Me leva para uma aparadinha e um banhinho no pet.
- Oi?
- Que oi, que nada, Guiga. Você me ouviu! Você não está cuidando mais de mim. Isso não é certo.
Então era isso. O cachorro deu pra reclamar.
- Guiga. Eu nem consigo mais trabalhar. Não vou à ARMA-DILHA faz doze horas.
Me senti em um filme do Woody Allen. Eu já tinha tanto com o que me preocupar e ainda tinha que aguentar crises caninas?
- Por que você não está conseguindo trabalhar, Geraldo? O que está te faltando? Você tem tudo. Tem até Arak, cachorro…
- Mas meu rabo está com pelos bipartidos!
Era o máximo. Como Geraldo podia se preocupar tanto com a aparência? Não tinha a menor ideia de quem estava lhe dando tal exemplo.
- Guiga, me leva pra aparar o pelo no pet!
- No pet?
- Não, melhor, me leva pra cortar o cabelo no seu cabeleireiro. O Japa!
- O Japa, Geraldo? – Perguntei, já atônita.
- Isso, o Japa. Quero cortar cabelo nos Jardins. Eu também sou gente.
- Por que raios você está com essa ideia fixa agora, Geraldo? – Falei, já meio nervosa.
- Guiga, você sabia que a dona Matilde do 79 foi indiciada pela Lulu?
- O que? Indiciada? Pela cachorra?
- Sim, é crime não dar atenção aos animais. A Lulu se juntou com a Etinéia, faxineira da dona Matilde e elas duas foram na delegacia dar parte. Duplo homenídio, algo assim: Crime do Cão-Larinho branco e Crime de Preconceito de Raça, Cruz, Credo, Planeta. A Etinéia é ET e se sentiu ofendida quando dona Matilde disse que o trabalho que ela estava fazendo devia ser bom só em Marte.
- Ave Maria!
- Isso também é crime!
- O que?
- Chamar santo em vão!
Achei melhor não contrariar. A nova faxineira, Zulu, moça meio estranha, viria no dia seguinte e eu não queria surpresas.
- Tá bom, Geraldo. Vou marcar um horário para você no Hair Chic.
- Isso, Guiga! Marca mesmo.
- Será que agora eu posso continuar a assistir minha novela?
O cachorro deu de ombros, foi saindo em direção à cozinha e disse de lá, enquanto abria um Toddynho:
- Aproveita e compra uma caminha!
- Oi?
- Uma não, duas. Uma pra mim e uma pra Zulu.
guida.ribeiro
… é viver
Ainda não encontrei meu amor. Ou talvez até já tenha encontrado e não tenha notado pela minha inobservância, ignorância, burrice, chatice, estrelato… Mas de uma coisa tenho certeza, tenho muito a agradecer a toda alma e corpo que se aprochegou nos últimos… O quê, vinte e poucos anos?
De certa forma eu já disse isso em outras palavras há algum tempo, num post aqui, mas quero dizer de novo. Eu posso. Eu posso dizer o que eu quiser aqui. Mas certamente não devo dizer tudo.
Poder é uma coisa. Dever é outra. Li um artigo do Eugênio Mussak sobre isso há algum tempo na revista “Vida Simples”. Aliás, esse cara é inspirador. Assisti a uma palestra em que ele maravilhosamente falou por mais de uma hora sem usar um único slide ou recurso gráfico. E arrebentou. Gênio.
E voltando ao meu amor, não sei exatamente se importa esse tal amor. Esse, que procuro tanto. Esse, que me faz perder a calma. Esse, que me acelera o sangue. Talvez não tenha a mínima importância.
Muito porque, eu já encontrei o amor. E ele vem em tantos formatos e lugares: No dia-a-dia do trabalho; quando digo “bom dia” naquele frio danado entre o estacionamento que compartilho com jatinhos, boeings 767 e o prédio 7; na buzinadinha de agradecimento que ouço no trânsito quando eu dou passagem (é, eu dou passagem); no pôr-do-sol que vejo às terças-feiras; nos papos que tenho com meus grandes amigos por telefone ou ao vivo; na risada larga de alguém que acaba de ouvir uma de minhas piadas sem nexo; nas piadas também sem nexo da minha mãe de oitenta anos; na voz-de-urso do meu irmão de quarenta e seis; na minha voz-de-urso, em resposta, baixinho, pra ninguém no trabalho perceber que eu sou louca; na pizza com vinho que como com minha querida amiga que acaba de estraçalhar a possibilidade de sair com aquele carinha que ela estava paquerando; no “Oi, Guida” do Bené, atendente da padaria aqui perto de casa, cuja mãe também se chama Guida; nas marchas que meu carro muda sozinho; na roupa passada que eu disponho no armário de modo monocromático; na esperança; em tudo de bom que ganhei de você que está lendo isso aqui.
Amor é tudo isso. Amor é sentir. Amor é poder amar.
Amor é nome de paçoca e é nome de amor.
guida.ribeiro
“filipe”
fiz esta quando meu primeiro sobrinho nasceu, há 16 anos…
clique para ouvir > Guida Ribeiro – Filipe (Ensaio)
letra, música, vocal e violão: Guida Ribeiro
abra a porta do quintal que e o sol vem chegando
que transforma as estações e as nossas vidas
trás alguém pra nos brindar, amor vai ganhando
nosso sonho vem mesclar de realidade
por você tudo é tão lindo nessa cidade
abra todo coração que ele vem chegando
transbordando de calor todo nosso dia
nos fazendo acreditar que o amor é um sonho
que põe tudo no lugar dia após dia
e que por você a vida é tão bonita
guida.ribeiro
“beijo sua boca (feliz)”
clique para ouvir> Guida Ribeiro – beijo sua boca (feliz)
letra, música, vocal e violão: Guida Ribeiro
beijo sua boca
eu tenho toda sensação de ter você
dentro de mim agora mais e mais além
do que eu pensei que poderia ter alguém em mim
beijo sua boca
eu tenho tudo o que eu quis
o seu corpo é minha casa que me faz feliz
a cada dia mais e mais feliz
sinto seu jeito
algo de incrivelmente bom, perfeito
que delicadamente me devora
e eu nem pensei que eu poderia me sentir assim
quero-te agora
hoje amanhã pra sempre por aí a fora
me fazendo tudo o que eu quis…
guida.ribeiro
vinheta “eu to mentindo”
clique aqui e ouça> Guida Ribeiro – vinheta – eu não te amo
letra, música, vocal e violão: Guida Ribeiro
vai, vai, vai, vai, mais um dia
vai, vai, vai, vai a poesia
se eu digo que não te amo eu to mentindo
vai, vai, vai, a alegria
guida.ribeiro
“me dê algo”
clique no link para ouvir > Guida Ribeiro – Me de Algo (Ensaio)
letra, música, vocal e violão: Guida Ribeiro
Talvez não seja o caso de tudo ser lógico
Talvez a vida seja muito mais que eu possa ver
Talvez eu erre, talvez seja um problema meu
Mas eu te peço, por favor, me de algo
Talvez o quadro que eu pinte seja falso
Talvez não valha tudo o que eu penso valer
Talvez o medo seja muito menos meu que seu
E eu te peço, por favor, me de algo
Me dê alguma coisa, por favor, me dê de graça
Me dê algum sinal de que você ainda se importa
Me deixe entender que seu amor nunca foi pouco
Não foi mentira
Me dê alguma coisa, por favor, me dê sem troco
Me dê algum retalho, mesmo que seja do meu próprio corpo
Me venha surpreender com um amor que embora morto seja
Cheio de vida.
guida.ribeiro
seção múúú… sical
Queridos,
Decidi atacar de MULTI-MÍDIA-QUERO-APARECER-OBRIGADA-CLIQUE-AQUI.
Começo hoje a postar algumas de minhas músicas. Peço desculpas pela qualidade (qual?) das músicas. Gravei todas em casa, muitas vezes só pra não “perder” a vibe.
Vamos ver no que dá.
Um beijo,
Guida Ribeiro – Ter Alguem (Ensaio) < clique neste link para ouvir
letra, música, vocal e violão: Guida Ribeiro
ter alguém tem milhões de significados
caminhar cada um na sua ou lado a lado
acordar com um beijo ou com despertador
se virar, dar de ombros ou fazer amor
entender a mensagem telepática
ou fingir que a vida não é rápida
ela é um míssil que passa veloz quero você e eu no nosso nós
.
ter alguém pode ser assim de tanto jeito
quase bom, quase certo ou então perfeito
esbarrar na mesmice e ser infeliz
ou largar tudo isso e fugir pra Paris
entender a mensagem telepática ou fingir que a vida não é prática
ela é quase como uma equação, você e eu igual a tudo bom
guida.ribeiro
Wagner Morra
DE: GERALDO
PARA: SR. MAICON
ASSUNTO: VIAGEM
CARO SR.MAICON, ESTOU EM MIÇÃO. INDO PARA OS TRÊS LUGARES SORTEADOS NO GLOBO TERRESTRE NA HORA DO ALMOÇO, QUAIS SEJAM: SERRA LEOA, TITICACA E MAIRIPORÃ.
MOTIVO DA VIAGEM: COMPRA DE CADARÇOS PARA O ALL STAR DO NOVO VICE PRESIDENTE.
SOLICITO SUA AUTORIZAÇÃO.
OBRIGADO.
–
DE: SR. MAICON CHARLOTTE, O INCRÍVEL
PARA: GERALDO, O INSIGNIFICANTE
ASSUNTO: VIAGEM DE C É R.
GERALDO, QUE DIABOS É ESSA HISTÓRIA DE MIÇÃO? NÃO FAZ O MENOR SENTIDO. E SE FOR PARA COMPRAR CADARÇOS PARA O ALL STAR DO CHEFÃO, COMPRE AQUI MESMO NA VINTE E CINCO DE MARSSO. DEIXA DE SER IMBECIL E COMECE A ESCREVER DIREITO.
EMBORA EU SEJA O CARA CERTO PRA ISSO, NÃO AUTORIZO NADA.
BEIJO.
–
DE: GERALDO
PARA: SR. MAICON
ASSUNTO: ENTÃO TÁ.
TUDO BEM, SR. MAICON. QUEM MANDA AQUI É VOCÊ. MAS PENSANDO NA LÓGICA DA VIDA, QUANDO VOCÊ DECIDIU DEIXAR O IBAMA LEVAR O CHICÃO, TODOS OS AFAZERES DELE FICARAM PARA EU FAZER. O CHEFÃO NUNCA SOUBE QUE O CHICÃO EXISTIA, NEM SABE QUEM SOU EU, MAS SABE QUE A RESPONSABILIDADE POR CADARÇOS AQUI NA ARMA-DILHA É SUA, LOGO, SE OS CADARÇOS NÃO ESTIVEREM SEMANA QUE VEM NA MESA DELE… SEI NÃO.
OBRIGADO.
–
DE: SR. MAICON CHARLOTTE, O INCRÍVEL
PARA: GERALDO, ELITE DA TROPA.
ASSUNTO: ENTÃO TÁ, ENTÃO!
GERALDO, PENSANDO BEM, VÁ LOGO COMPRAR ESSES CADARÇOS. MAS FAÇA UMA ROTA LOGISTICAMENTE VIÁVEL. ACHO MELHOR COMEÇAR POR TITICACA, DEPOIS SEGUIR PARA SERRA LEOA E SÓ ENTÃO IR PARA MAIRIPORÃ. ISSO FAZ O MAIOR SENTIDO.
QUANTO A QUESTÃO DA LÓGICA, EU AUTORIZO PORQUE EU POSSO!
… O SISTEMA É FODA.
ABRAÇOS.
–
guida.ribeiro
Viva a sexta-feira
Algumas homenagens ao dia mais lindo da semana:
guida.ribeiro
E, mais do André M. Machado (O artista revelação):
arte e roteiro: André M. Machado
… e nada de relatório.
o ET Gordo
Geraldo caminhava pela borda da piscina diante do olhar desaprovador do Seu Rufino, do 113. Olhava para dentro d’água com a esperança canina de ver um peixe dourado.
Assim que o Seu Rufino sai, fazendo movimentos quase frenéticos com a cabeça para um lado e para o outro, chega Guida, com uma toalha preta disposta por sobre o ombro esquerdo. Diz bom dia a Seu Rufino que faz bico e some.
- Guiga, por que você cisma em trazer essa toalha preta para a piscina? Assim você me envergonha.
- Ah, já olhou para a sua sunga amarela, Geraldo? Quer mesmo falar de vergonha aqui?
O sol ardia enquanto a espreguiçadeira não se abria e Guida imaginava que seria bom que alguém a ajudasse. Mas logo pensou que estava na fase de fazer tudo sozinha, então, desencanou.
- Guiga! Não achei nenhum peixe dourado. Acho que o ET Gordo me enganou.
Guida olha terrificada para o cachorro branco enquanto quase torce o braço direito tentando por de pé a camilha.
- Quem é ET Gordo, pelo amor de Deus, Geraldo?
- ET Gordo é um amigo. Ora, não te falei dele?
- Não. Quem é?
- Um ET, ora, Extra Terrestre.
Guida examina o semblante tranquilo do cachorro que agora deixa a pata tocar de leve a água como se quisesse saber sua temperatura.
- Geraldo, estamos falando de ET aqui e você com essa tranquilidade toda?
- Qual o problema, Guiga. Eu tenho que fazer relatório das minhas amizades, agora? Você não faz das suas.
- Minhas amizades são todas desse mundo, Geraldo. Acho.
- E qual o problema, Guiga. ET Gordo é um cara legal.
- Conta tudo sobre ele! Já!! Você sabe o quanto eu gosto desse assunto!
- Hum, não há muito a dizer. O ET é um novo colaborador lá da ARMA-DILHA S/A, a empresa em que eu trabalho, você sabe.
- Você ainda trabalha lá?
- Sim. Eu sou um sobrevivente.
- Como assim, sobrevivente? O que aconteceu com os outros animais?
- É… a maioria foi levada pelo IBAMA.
- Até o Chicão?
- Sim. Eu fiquei muito triste, mas ele também se foi.
- Sinto muito.
- Agora temos o ET Gordo, Guiga. E ele começou logo fazendo um curso comigo. Depois te mostro as nossas anotações.
- Sensacional! Conta mais sobre ele, Geraldo.
- Bem, eu não sei muito sobre ele, mas já temos alguns desenhos feitos pelo povo de Artes da ARMA-DILHA.
- Ah, essa eu quero ver… Mas como você sabe que ele é um ET de verdade?
- Bem, veja, todos os ETs que aparecem por aí são sempre iguais, todos com aqueles cabeções, corpos esguios, mãos grandes… O ET Gordo é gordo, quer prova maior de que ele é de verdade?
- É, parece fazer sentido.
- Faz. Faz muito sentido. Passa o bronzeador em mim, Guiga?
- Mas ele falou que tinha peixe dourado na piscina. Por que ele falaria uma idiotice dessas, Geraldo?
- Não sei.
Nesse momento, Guida vê voltando para a piscina, Seu Rufino segurando algo que parecia um aquário. Quanto chega mais perto olha para Guida e para Geraldo com olhar de desaprovação. Nesse instante todos percebem que é mesmo um aquário o que o velhinho segura nas mãos um tanto trêmulas. Nele, três peixinhos dourados. O velho, então, como se estivesse em sua própria sala, ou banheiro, despeja o conteúdo do aquário na piscina e sai como se nada tivesse acontecido dizendo:
- Se vocês podem fazer o que querem, eu também posso!
Daquele dia em diante Guida acreditou piamente em ET Gordo… E você?
guida.ribeiro
arte e roteiro dos desenhos: André M. Machado
agradecimentos especiais a André M. Machado e toda Equipe de KPI. Valeu, moçada!!
mudança
HÁ ALGUM TEMPO ATRÁS…
- Veja, Geraldo, trouxe a planta do apartamento novo.
- Oh…
- E aí, gostou?
- Hum… Já vi casas de cachorro maiores.
- Ah, Geraldo, você achou pequeno?
- As pulgas e as formigas talvez se sintam em casa.
- …
- Guiga, posso escolher o meu quarto?
- Pode, claro.
- Quero esse aqui, Guiga!
- Não, dá. Essa é a sala.
- Então, esse.
- Não também, esse é o meu quarto.
- Então, vou ter que dormir no elevador?
- Você fica com esse aqui, olha. É bonito, arejado, pertinho da cozinha…
- O que quer dizer “serviço”? Eu vou ter que trabalhar?
- Não, a máquina de lavar trabalha por você.
- A máquina de lavar vai ficar aí também?
- Sim.
- Aquela velharia é muito barulhenta. Não tem uma nova?
- Não, não teremos máquina de lavar nova.
- Então, vou dormir no sofá.
- Não teremos sofá.
- Credo, Guiga. O que teremos?
- Dívidas.
…
UM POUCO DEPOIS DE QUE UM TEMPO ATRÁS…
- Geraldoooo, cadê você?
- Estou indo para a piscina, Guiga.
- Nossa, que sunga é essa?
- Ganhei. Tenho fãs…
- Mas quem vai me ajudar a tirar as coisas das caixas?
- Pede pras formigas… eu to atrasado.
- Aqui não tem formigas! E tá atrasado para quê, Geraldo?
- Pra fazer amizades… hehehe. Tchau.
- Não bate a port…
BLAM!
- Cachorro sacana…
DEPOIS DE MUITAS CAIXAS…
BLAM!
- Ah, voltou, é?
- Voltei, Guiga. Já fiz muitos amigas…
- Muitos amigas, é? E vê se não bate a porta. Aqui se paga multa pra tudo.
- Hum… as cadelinhas aqui são incríveis.
- E pode cachorro na piscina?
- Poder não pode. Eu disse que você não se importava de pagar a multa.
…
ENFIM A CASA ARRUMADA!
- Olha só que lindo, Geraldo. Tudo arrumadim…
- Ué, cadé minha caminha?
- Ah, esqueci de dizer que se você não ajudasse na arrumação, eu ia jogar sua cama fora. Agora você vai ter que dormir em outra coisa. E joguei fora sua coleção de rolhas de Arak também…
- Como você pode jogar minhas coisas fora? E eu vou dormir no que, agora, Guiga?
- Pega uma caixa de papelão. Tem várias aí na sala.
- Guiga sacana…
É A LUA
- Guiga, que legal a visão daqui dessa sacada, não?
- É bem bacana, né?
- Aquilo no céu, é a Lua?
- É a lua, sim, Geraldo. Linda, né?
- Linda mesmo. Por que será que ela está tão linda hoje?
- Porque a gente mudou, Geraldo.
- É, a gente mudou.
…
- Então, compra uma outra caminha pra mim?
- Compro. Cachorro safado…
- Hehehe…
guida.ribeiro
voltei
Oi, queridos que ainda lêem esse treco aqui…
Voltei. Estava “viajando” em todos os sentidos do termo, mas voltei.
Aproveitei no meio dessa viagem toda e me mudei. Mudei de endereço, mudei montes de coisas.
Em homenagem a toda essa mudança, retomo meus textos, e aproveito para agradecer a todos pela frequência…
Valeu, boa leitura, e até já já,
Beijos,
guida.ribeiro
e essa fase de poemas que não passa…
MARCA – guida.ribeiro
SOMOS ANIMAIS INCONSEQUENTES
BONECOS MANIPULADOS
TEMOS DOR DE BARRIGA, COTOVELO, DENTE
ÂNIMO DE SERES INANIMADOS
PRANTO PRA DIAS DE SOLIDÃO
SORRISOS PRA DIAS DE REVEILLON
CALADOS
MANIPULADOS
HUMANOS
RETÓRICOS
PICTÓRICOS OU SEM COR
SOMOS ANIMAIS MEIO INDECENTES
FIGURAS DE UM CONTO-DE-FADAS
TEMOS SOLIDÃO, PAIXÃO, RAIVA, SOMOS CRENTES
EM ALGO QUE JÁ NÃO VALE NADA
FALO DE SERES QUE CIRCULAM
OU DE OUTROS QUE SÓ ESPECULAM
SEUS ATOS
MEUS ATOS
CHORAMOS
SENTIMOS PRAZER E DOR
guida.ribeiro
como se fosse você
Eu escrevi um poema como se fosse você.
Eu escrevi um poema como se fosse você me dizendo.
Eu escrevi um poema como se fosse você me dizendo que.
Eu escrevi um poema como se fosse você me dizendo que você é você.
.
Como se fosse você eu disse, portanto pra mim, que você é alguém ruim.
Como se fosse você eu disse, portanto pra mim, que você é alguém.
Como se fosse você eu disse, portanto pra mim, que você é.
Como se fosse você eu disse, portanto.
.
Portanto pra mim, eu disse de você ao universo, e agora quero explicar, só pra você.
Portanto pra mim, eu disse de você ao universo, e agora quero explicar, só.
Só, quero explicar que eu me sentia muito só.
Só, quero explicar que eu me sentia muito.
Só, quero explicar que eu me sentia.
.
Por mais fabulosos animais que somos, não há nada que garanta nosso próximo segundo.
Como se Fosse Você – guida.ribeiro, 2010.
nunca faço
Sou sua, condição que se evapora,
Ao menor sacrifício, exercício, penhora
De uma vida, uma certeza, uma promessa que se perdeu
Na saída do quarto, na desistência de um parto, o meu
Sou sua até o entardecer,
E se ficou tarde, melhor eu me esquecer
Que eu mesma disse que era sua
Sou sua até o próximo trem, ônibus, estrada, rua
Nem tente fazer planos,
Sou sua até seu desengano
Sou sua por uma fração de segundo, um dia, alguns meses, por uma vida inteira
Sou sua por um sábado, um domingo, mas não por uma segunda-feira
Sou sua em uma vida sem o menor cabimento
Sou sua por não pensar em nada melhor no momento
Sou sua porque o peso de ser eu mesma me mata
Sou sua porque quanto mais te tenho mais você me faz falta
Sou sua em uma história cheia de recortes
Sou sua nos pelos brancos de um urso no polo norte
Sou sua em um pretérito ultrapassado, descontente
Sou sua sem intenção e ambição de ser, entende?
Sou sua até que você se dê conta de que eu sou outra
E sendo outra eu já não preciso mais ser sua, nem estar pronta
Sou sua em uma esfera da psique de ser e na verdade não ser sua
Sou sua em uma cratera seca na face oculta da lua
Sou sua em meus desejos escritos em grego que lanço ao espaço
Sou sua naquela gota de lágrima que nunca, nunca faço
NUNCA FAÇO - Guida Ribeiro, Out/2010
guida.ribeiro
e na agência de talentos…
- Próximo.
- Olá, meu nome é Guida.
- Hum… Não tem Guida aqui na lista.
- Procure como Guiga, por favor. Foi meu cachorro que me inscreveu.
- Ah. Tá aqui. Guiga, achei. Inscrição para atriz. O que sabe fazer de melhor?
- Esperar.
- Bem, temos um papel de grávida. Novela das três.
- Três da tarde?
- Não, madrugada… E é em Botswana. Interessa?
- Tem alguma outra coisa?
- Deixa eu ver… Tem uma participaçãozinha em um documentário sobre lápides de cemitério. O que acha?
- Parece educativo. Paga bem?
- Não. Na verdade, cliente morto não paga, sabe?
- Tem algo mais?
- Acho que para você, não. Lamento.
- Tudo bem. E… O que você acha do meu cachorro? Talvez tenha algo para ele. Ele fala.
- Hum… Não sei. Não consigo pensar em nada.
- Que tal o Horário Eleitoreiro?
- No Horário Eleitoreiro? Acho que não.
- Mas, ele fala. É um cachorro que fala. O candidato que o escolher será eleito na certa.
- Não, tem muita concorrência.
- Concorrência? Como assim?
- Ora, com palhaços, jogadores de futebol, cantores medíocres, atrizes pornô… Quem precisa de um cachorro que fala?
- Tem razão.
- Sinto muito, Guiga.
- É Guida…. Dá pra falar mais sobre a novela em Botswana?
guida.ribeiro
poeminha doce
SOU UMA ABELHA RAINHA QUE NÃO TEM MEL
NEM LEITE CONDENSADO
ÀS VEZES FICO ZANGADA MAIS DO QUE UM ZANGÃO APAIXONADO
SOU UMA ABELHA RAINHA COM A COLMÉIA E O CORAÇÃO
TODO FURADO
TODO FURADO
A MINHA REALEZA É BESTA COMO UM TORRÃO
DE AÇUCAR MASCAVO
guida.ribeiro
Geraldo ataca novamente: Pedido de Cachorro não se nega!
Querido Papai Noel, o único e verdadeiro.
Não vou dar uma de hipócrita falando minhas qualidades. Vou logo pedindo:
Preciso de um quarto novo. O quarto que tenho hoje é gelado e só tem pia, que fica do lado da máquina de lavar. Embora essa pia seja grande, no quarto não tem privada, o que me constrange, pois tenho que atravessar a cozinha para ir ao banheiro a noite, ou pior, tenho que utilizar postes e arbustos de dia, o que não combina com cachorros da minha linhagem.
No trabalho tudo igual e por isso mesmo eu queria também pedir: da um jeito naquilo! O departamento em que trabalho, Contas a Te Acertar, na empresa, ARMA-DILHA S/A – que faz equipamentos de caça e deixa animais (como eu) trabalharem lá para “zerar sua pegada ecológica” – é certinho demais… O ambiente é muito fofo. Bolo fofo. Fofo tipo oco, sabe? Ninguém aguenta perfeição.
Ontem, por exemplo, começaram a instalar uma tal de “rede sem fio”, ou Uairi-Lessie. Acho que tem a ver com a cachorrada que trabalha lá, mas, no fim, vieram quatro rapazes munidos de vários metros de fio para instalar a tal rede sem fio. E o mais incrível é que saíram de lá sem pegar peixe algum. Nem tubarão.
Outra coisa fantástica que anda acontecendo lá é um tal de êxodo, também conhecido como “movimento do fui” ou ainda, “o último a sair apaga a luz”. Não sei o que quer dizer, mas dizem que se sobrar alguém pra contar a história a gente vai ficar sabendo. O bom é que sobra muita cadeira. São todas desconfortáveis, com braço quebrado, rodinhas que não giram, mas a gente pode escolher qualquer uma, ou usar todas, se tiver nádegas suficientes. Tem muita gente que consegue.
Meu chefe, senhor Maicon, vive dizendo que “mudar é bom” e agora usa brincos e sapato alto. Há um tempo atrás fez um evento cheio de pompas para promover a mudança do nome da equipe da liderança, que agora vai se chamar “as baratas tontas”. Eu não concordei com a escolha. Achei que “os patina-mas-não-sai” seria muito melhor, mas preferiram seguir o tom ecológico, ou talvez simplesmente prezaram pelo português.
Perfeito demais pra mim. Preciso de agito, entende?
Então é isso, Papai Noel, esses são meus pedidos para o Natal. Estou mandando esta cartinha agora em setembro para que você tenha tempo de sobra e providencie tudo. Lembre-se que você tem os anões e as hienas, e eu só tenho a Guiga, que anda chatíssima com essa mania de ETs. Não quero pressionar, mas se você não me ajudar vou recorrer ao Coelhinho da Páscoa e aos políticos. Nessa ordem.
Um beijo e cuidado com o frio.
Geraldo, o cão.
guida.ribeiro
só hoje
Eu já estive no World Trade Center. Tomei um café em uma livraria que ficava no térreo. Lembro-me de ter gostado muito das tulipas amarelas que ficavam em frente ao prédio. Foi há bastante tempo, e pretendo viver muito mais.
Há pessoas hoje em dia que poderiam viver até mil anos. Isso é científico.
Dizem tantas coisas estúpidas, essa, sendo científica ou não, por que não pode ser dita?
Seria a salvação, nano robôs médicos e células que não se destroem? Que se dividem eternamente? Colágeno e elastina para dar e vender, seria isso? Natura Chronos 600?
Quem precisa morrer?
Se somos geneticamente programados para morrer, por que eu estou discutindo essa droga aqui? Posso cair morta agorinha mesmo e ninguém vai notar. Ninguém, porque em plena sexta-feira, eu, só por hoje, com toda minha magnitude, estou só.
Comprei uma pizza em homenagem à solidão e também em homenagem à minha dieta que será começada na segunda-feira.
Até Michael Jackson morreu. Todo mundo morre, menos Dorian Gray.
Hoje ninguém liga pra mim, nem Dorian Gray. E ninguém me vê, nem Corina Nowil.
Então eu liguei para sete pessoas hoje. E, bluft. Nada. Todo mundo ocupado e sem chance. Quis viajar, mas deu preguiça. Então sobrou a TV e a pizza congelada.
Tem gente que se mantém congelado. Criogenia. Sim, há gente assim. Confie. Há várias pessoas, que possuindo uma doença que hoje não tem cura, (ou não), são congelados após sua “morte”. Tem gente assim há quarenta anos! Cientistas esperam que no futuro haja tecnologia suficiente para descongelar essa gente, curar suas doenças ou apenas seus cansaços de fim de vida, e fazê-las viver de alguma forma.
Veja, a primeira cirurgia de transplante de coração pareceu tão absurda quanto a criogenia. Pense que foi em 1967 que isso ocorreu pela primeira vez. Era no mínimo macabro esperar que alguém morto pudesse ceder um coração, mesmo para alguém que estava quase morrendo.
E não foi isso que aconteceu?
Então, a mim me parece muito palpável que nas próximas décadas, realmente a vida seja prolongada de alguma forma.
É isso. Não é tão enlouquecedor assim, concorda?
Aquele dia eu não quis subir no World Trade Center. Nem me arrependo disso, mas a verdade é que estou só. Só por hoje. Mas não posso mais subir naquele World Trade Center. Mesmo que eu viva mil anos.
Nunca mais.
guida.ribeiro
na parede
melhor – guida ribeiro, 2010
fui tanto, será?
e já… tanto faz
num zapt de nada o castelo cai
e eu jurava que este não era
de areia
parece até que eu matei
que só eu errei
e mesmo aceitando a culpa, a multa, o gelo e o pouco
cadeia
não valeu
nada aconteceu
o coração gelado, acho, aquiesceu
tudo em vão
agora é bom dia, maldita solidão
a única filha da puta que está aqui
enroscada em mim
como se assim tivesse de ser
devo entender que não há par ou divisão
não há possibilidade
não há comunhão
não há confiança
não há paciência
claro, não há tempo a perder!
comum?
só o nada,
simples, simplesmente, o nada.
não sou idiota,
sei quando dou na parede com a cara:
quebro os dentes e o nariz
quer melhor? sou idiota, sim
nem eu mesma tenho a mim
guida.ribeiro
Nome de Viver
Tecnologia. Ah, como eu gosto dela. Fico abobada com tantas facilidades. É o máximo ser avisada pela TV que o Jornal Nacional está para começar. Aí, você vai lá, dá um click no botão do controle e PLIN, aparece o tal programa. Ta certo que em véspera de feriado o William Bonner nem tchum, mas, ainda assim, assistir ao jornal na TV e saber tudo sobre Roraima é fabuloso.
Lembro-me que na escola, eu tendia a confundir a sigla dos Estados de Roraima e Rondônia e criei um método infalível para nunca mais esquecer. O fato é que me esqueci. E agora, procurando no Google, lembrei que RO é Rondônia e Roraima é RR. Olhando para as duas siglas fica bem mais fácil, mas imagine só, a dona Mirtes, dizendo que vale ponto para a nota do bimestre, perguntar com voz firme “qual a sigla do Estado de Roraima, Margarida”?
Minha mãe, que muitas vezes prevê o futuro, um dia, (há muito tempo), me disse que eu iria me casar com alguém cujas iniciais do nome eram RR. Parti para Rondônia buscar inspiração… E nada. Também, Roraima é que é RR, esqueceu?
E esse estado ficou em meu inconsciente. Roraima? Não, estado de quem quer se casar! Também conhecido como estado de calamidade pública.
Devorei várias listas telefônicas buscando RR, mas depois de sair com um tal Renato Russo desisti de procurar o casamento pelas iniciais do nome.
Comecei, então, a procurar pelo time de futebol, pela religião, pelo perfume, pela coleção de coisas esdrúxulas, pelo sotaque, pelo número do RG, pelos ombros, pela maneira de se expressar, pelo beijo, pelo mar, pelas mãos, pela chuva, pela ideologia, pelo pôr-do-sol, pelas cores, pela música, pela saída de emergência, pela capacidade de respirar… Ufa!
Encontrei muitas coisas nessas buscas, mas não encontrei o tal casamento.
Então pensei que talvez estivesse certo aquele monge budista que disse que a melhor maneira de encontrar algo é ficar onde está. Afinal, muito do que procuramos está dentro de nós mesmos. Agora finalmente vejo, com toda clareza, que por mais que eu tenha procurado, nunca encontrei o casamento, mas encontrei o amor. E ele valeu cada pequeno pedaço. Doce ou ruim, bom ou amargo.
Amor, que até então, apenas tinha sido nome de paçoca, agora nunca mais deixará de ser nome de viver todas as grandes e pequenas coisas.
E viver é bom.
guida.ribeiro
E Guiga também vai ao médico…
- Muito bem, o que te trouxe aqui?
- Meu cachorro sugeriu e estamos num momento de gerenciamento participativo lá em casa.
- Como?
- …Tenho sentido pesares, doutor. Pesares e dores, tonturas, insônia… Torniquete, sabe?
- A insônia é durante o sono?
- Não, doutor. A insônia aparece sempre quando estou acordada. A não ser que eu esteja dormindo e não repare…
- Hum… Talvez seja melhor ter certeza da insônia antes de começarmos qualquer tratamento.
- Muito apropriado, doutor. Vou procurar ter certeza. Enquanto isso, podemos falar sobre os outros sintomas?
- Claro, se não forem sintomas silenciosos…
…
- Doutor, qual será o motivo dos meus males?
- Muitos males vêm do alimento, sabia? O que tem ingerido ultimamente?
- Sapos.
- Que tipos?
- Verdes, azuis, vermelhos, cinzas, verdes…
- Você falou verdes duas vezes.
- É que desse eu sempre engulo mais.
…
- Já tentou tratar a alegria?
- Bem, eu sempre tento, mas não tenho conseguido muitas alegrias no meu dia.
- Alergia, eu quis dizer. Desculpe-me, não tenho boa dicção.
- Meu cachorro também não.
- Como?
- Nada. O senhor acha que eu tenho cura, doutor? Principalmente para as dores?
- Não acho, mas médicos não devem achar nada. Vou lhe passar todos esses remédios que não sei direito para quê servem e nem quais horríveis reações poderão causar em você, e veremos o que acontece. Em caso de choque anafilático, arranje alguém para desenrolar sua língua. Ah, e aproveite e faça esses trinta e nove exames padrão. Tenho um convênio com o Laboratório Delbolo e você entende, não é? Temos que estreitar relações profissionais. Nunca se sabe quando vamos precisar de alguém nessa vida.
- Muito bom, doutor. Mais alguma coisa?
- Sim, você vai ter que parar de comer sapos de qualquer jeito.
- É difícil, doutor. Eles invadem meu dia, e enlouquecidos, caem por minha goela abaixo. E faz tanto tempo que isso acontece, que nem sei se consigo evitar…
- Tempo é relativo, minha cara. Eu atendo um grupo de escoteiros há vinte anos que agora teve que parar de comer rãs porque estavam alucinando.
- Rãs alucinógenas?
- Não, rãs cinzas. São as piores! Detesto rãs cinzas. São muito chatas. Reclamam de tudo. Que mau humor… Rã cinzas do inferno!
- Ah.
- Então, onde estávamos mesmo?
- Nos sapos. O senhor acha que eu consigo uma estratégia para parar de engoli-los?
- Estratégia é a chave. Mas, cuidado. Eu já atendi um enxadrista que por um erro de estratégia parou de comer cavalos e torres quando devia parar de comer peões. Tudo isso porque alucinavam!
- Os peões?
- Eu.
guida.ribeiro
Geraldo vai ao Vet
- Chegamos.
- Que história é essa de VETERIÁRIO, Guiga!
- Veterinário, Geraldo. É que caiu o N do letreiro.
- Por quê?
- Porque os enes caem, ora essa.
- Não, Guiga. Por que estamos aqui?
- Ah, Geraldo, não me venha com essa de medo agora…
- Não estou com medo. Quero apenas saber porquê você disse que íamos ao Parque Villa Lobos e estamos aqui, no VETERIÁRIO.
- Nós vamos ao parque logo depois que você tomar sua vacina.
- Eu sabia que era essa tal vacina…
- Sabia? Então ótimo. Vamos, saia do carro.
- Não vou.
- Como não vai? Pare com isso, Geraldo. Saia do carro e vamos logo.
- Não posso sair agora, Guiga.
- Geraldo, pare com a loucura!
- Não estou com loucura, Guiga. Apenas acho um absurdo você, uma mulher tão…
- Tão?
- … Tão racional… querer que eu tome essa tal de vacina anti-rábica.
- Ora, mas é por isso mesmo. Todo cão precisa dessa vacina.
- Ah, não precisa, não. Não mesmo. E falando nisso, por que você não tomou a sua?
- Que minha? Eu não preciso tomar essa vacina, Geraldo. Ta louco?
- Eu não estou louco, Guiga.
- Então, por isso mesmo, melhor tomar. Vamos.
- Estava falando da vacina H1N1, ora. Vacina dos porcos. Por que não tomou, hein? Hein?
- Por que o Ministro da Saúde não chamou minha faixa etária, oras.
- Hum… Mas você tem feito o que ele sugeriu para todos?
- Ah, Geraldo, você está ganhando tempo. Vamos logo, saia do carro.
- Guiga, por favor…
- Não adianta me olhar com essa cara e pôr as orelhas para trás. Saia do carro e vamos acabar logo com isso!
(…)
- Viu, nem doeu.
- Não doeu em você, Guiga.
- Ah, Geraldo, que bobagem, foi só uma picadinha de nada.
- Bobagem, não. Eu fiquei com cara de palhaço.
- Imagina…
- E você ta rindo, Guiga.
- Não to não… he he he…
- Droga, Guiga. Por que não me contou que a vacina anti-rábica não tinha nada a ver com cortar o rabo da gente?
- Há há há…
- Cruel. Tomara que você vire um porco…
guida.ribeiro
TORNIQUETE
E numa noite idiota de segunda-feira, Geraldo e Guiga na sala começam um pequeno diábulo:
- Geraldo, querido… Eu preciso conversar com alguém. Que seja você.
- Ah, que bom que eu sirvo quando não tem mais ninguém. Fala.
- Como, fala? Isso lá é jeito de tratar a pessoa que te dá o Arak de cada dia? Pode pelo menos parar de assistir o jornal nacional enquanto conversamos?
- Ah, sim, posso. O que te aflige, Guiga? Conta.
- Eu to mal, cachorro. To realmente mal.
- Que tipos de mal?
- Tipos de ficar chorando, feito uma maria mole por aí.
Geraldo pensou um pouco e resolveu não falar o que vinha a sua cabeça: “E maria mole chora?”. Afinal, nem estava numa sessão psiquiátrica. Preferiu seguir dizendo qualquer outra coisa:
- Por que você anda chorando, Guiga? Que estranho… Você é sempre tão segura de si… Credo.
- Cheguei a alguns limites em determinados campos na minha vida. Agora é mudar ou explodir.
- O que são limites, Guiga? E o que são campos?
- Limites são fronteiras. Campos são torniquetes, na verdade.
- Eita, o que é isso?
- Torniquete, Geraldo. Torniquete. Aquele negócio que aperta. Estou com o coração apertado. Preciso decidir algumas coisas bem sérias.
Geraldo pensa por três segundos, coça as costas com a pata traseira esquerda e finalmente diz:
- Faça como eu, Guiga. Minta.
- Hein?
- Minta, Guiga.
- Como assim?
- Minta que você tem a carreira que sonhou, minta que você já alcançou tudo o que queria dos seus projetos pessoais, minta que você está radiante!
- E você faz isso, Geraldo?
- O tempo todo. Agora por exemplo, estou mentindo que estou conversando e te dando conselhos. Na verdade, enquanto olho pra você, estou ouvindo o jornal nacional e nem prestando atenção no que você diz, nem no que eu digo, pois estou falando qualquer coisa para a nossa relação não ficar tão deficitária.
(…)
- Geraldo, você é um gênio! E já me sinto melhor com essa primeira mentira.
- TPM desgraçada, hein Guiga…
guida.ribeiro
VEM AÍ – GERALDO ILUSTRADO!
Isso mesmo, não percam – GERALDO ILUSTRADO!
Em breve nosso querido cãozinho, agora “para ver”.
AGUARDEM!
guida.ribeiro
TAMANDUÁS E A FALTA DE SONO – micro contos vol.2
Comprei um tamanduá para acabar com as formigas lá de casa. O IBAMA veio e acabou comigo.
Qual a diferença entre um tamanduá e minha vizinha de baixo? As formigas.
Por que os tamanduás gostam tanto de formigas? Porque nunca foram ao Mc Donalds.
Micro diálogo entre mim e um tamanduá abusado:
- Venha cá na cozinha. Veja, elas costumam passear por aqui..
- Schlept!
- Argh, o que é isso?
- É que tinha uma formiga no seu pescoço.
Micro diálogo entre um tamanduá bandeira e um homem sem bandeira alguma, num ponto perto de casa:
- Aqui passa formiga?
- Não, só Perdizes, Lapa e Largo da Batata.
Micro lorota de um tamanduá mirim para alguns homens adultos, no hospital:
- E então os ETs me deixaram lá, sem rim!
- … Coitado, ele sempre fica assim quando come formigas de infecção hospitalar.
Micro diálogo entre um tamanduaí, o menor da categoria, e algum outro idiota, jogando STOP:
- Animal com T.
- Tédio.
guida.ribeiro
Geraldo e o Código de Étnica
E numa segunda-feira sem graça, na sala do gerente geral…
- Então, Sr. Maicon, acho que o senhor não deve se preocupar com essa coisa do pessoal achar que o senhor é… diferente.
- Como chama aquela menina do Contas a Pagar?
- A Armênia, Sr. Maicon?
- Isso. Ela.
- O que tem ela?
- Espalha por aí que eu to pegando.
- Pegando?
- É, Geraldo. Pegando, ficando, saindo, entende? Será que eu tenho que te explicar tudo?
- Mas a Armênia, Sr. Maicon?
- Qual o problema? A Armênia, sim. Ela mesma. É bonitinha, todo mundo fala.
- Ela tem dezessete.
- Isso. Dezessete é ótimo. Espalha. Espalha.
- Espalho. Mas dizem que ela é namorada do Rufino, da Expedição.
- Ah, é?
- É. Aquele grandão. Rufinão, todo mundo conhece.
- Então… Espalha com classe.
- Mas, Sr. Maicon, o que é espalhar com classe?
- É deixar no ar, entende? Subentendido… Ninguém tem prova, ninguém pode dizer nada, mas todo mundo sabe. Espalha.
- Ah. Entendo. Mas, Sr. Maicon, e o código de étnica?
- Código de quê?
- De étnica. Aquele que saiu no portão corporativo ontem, diz o que podemos ou não fazer aqui dentro da ARMA-DILHA, senhor. Diz, por exemplo, que um funcionário não pode sair por aí pegando outro, Sr. Maicon. Coisas de Étnica.
- Diz tudo isso, é?
- Diz.
- Então chama o Rufinão aqui.
- O Rufinão?
- Ele é grandão?
- Enorme, Sr. Maicon. Grande mesmo.
- Então chama ele, chama ele.
- Sim, Sr. Maicon, eu chamo. Posso adiantar o assunto?
- Diga que é para tratarmos assuntos do código de étnica, ah, e chama o Serjão, o novo segurança. Fala para ele ficar aqui na sala comigo, antes do Rufinão chegar.
- Ok, Sr. Maicon, mais alguma coisa?
- Sim, se apronta para espalhar também que o Rufinão deu uma de macho e quis me bater e denuncia o homem para o código de étnica.
Depois…
- Geraldo, o que ta acontecendo na sala do seu Maicon?
- Sei lá, por que, Chicão?
- Hum. Não sei não… o Rufinão ta lá dentro há séculos.
- Jura?
- Ta sim. Faz pelo menos umas duas horas.
- Nossa, será que eles dormiram?
- Acho que não… o Rufinão não tem jeito de quem dorme em reuniões.
- É, o Rufinão, não.
…
- Então, o que será que aconteceu, Geraldo?
- O Serjão ta lá?
- Não, o Serjão saiu da sala faz tempo…
- Saiu?
- Pois é.
- Caracas…
- Fica na Venezuela.
…
Já quase no fim do dia, a porta da sala do gerente geral Maicon se abre devagar e da sala sai Rufinão, arrumando o cinto. O cinto.
- Olha lá, Geraldo. O Rufinão finalmente saiu.
- Espalha que ele bateu no chefe.
- Hein?
- Nada… Eu vou lá.
TOC TOC TOC
- Sr. Maicon, posso entrar?
- Entra, Geraldo.
- Sr. Maicon, posso denunciar o Rufinão agora?
- Não. Denuncia a Armênia.
- A Armênia, mas pelo quê Sr. Maicon?
- Sei lá, arranja alguma coisa.
- E o Rufinão?
- Manda flores.
guida.ribeiro
CONTABILIZANDO – micro contos vol.1
Metade do que eu falo é bobagem, um quarto eu uso para me promover, e o outro para dormir.
Uma canoa se faz com um pau apenas. Se fossem vários seria uma jangada.
2/3 dos meus amores foram passageiros. Quase todos eram bons motoristas.
Estima-se que 87% das hienas riem sem nunca terem escutado uma piada.
A picada de uma abelha dói muito mais do que a picada de uma agulha, embora ambas morram depois.
Daqui a 100 anos nenhum de meus problemas me incomodará mais.
O casamento? Geralmente são duas alegrias: uma quando você arruma um bom advogado, outra, quando ele é bonitão e te convida pra sair.
100% da população de formigas que hoje circulam livremente pela minha casa são umas filhas da puta.
Este sanduíche está melhor do que metade das pessoas que já experimentei. Já este texto, não.
guida.ribeiro
Chicão
Oito e quarenta e três da manhã. Geraldo chega ao prédio cinza metalizado, entra pela portaria principal a passos lentos. Passa o crachá no detector de mentiras e percebe o olhar duro do segurança. Ensaia um sorriso sem graça enquanto passa pela borboleta. Olha a grande placa na parede com nome da empresa: ARMA-DILHA S/A, e dirige-se ao hall de elevadores. Pega o segundo elevador que chega, já que o primeiro sempre para entre os andares. Salta no quarto andar e entra pela porta de vidro com sua gravata azul. Anda alguns passos pelo corredor coberto com carpete verde-escuro e vai até sua estação de trabalho que fica bem próxima a copa. Então, abre a gaveta com a boca para pegar um caderno e uma caneta. Deixa a caneta cair. Olha ao redor sem jeito para ver se alguém o viu. Ninguém. Ninguém chega antes das nove, exceto Chicão. Chicão é o assistente do supervisor do coordenador do gerente geral, Sr. Maicon. Um jumento. Não o Sr. Maicon, Chicão, e ele estava no banheiro naquele momento.
A empresa, ARMA-DILHA S/A, famosa multinacional fabricante de equipamentos de caça, tem em seu quadro de funcionários, ironicamente ou não, cachorros, antas, galos e jumentos, entre outros animais, além de seres-humanos, ao que tudo indica. Isso porque a ARMA-DILHA acredita na diversidade. E como sustentabilidade está na moda, para cada resma (resma?) de animal abatido em decorrência de seus equipamentos de caça, um novo bicho é contratado pela empresa. Assim eles tentam de qualquer jeito “zerar a pegada ecológica”, mesmo que ninguém lá saiba exatamente o que isso queira dizer.
Depois das nove os colaboradores começam a chegar. Em poucos minutos as estações de trabalho estão cheias de pessoas e computadores ligados. Geraldo e Chicão são os únicos bichos do andar, mas não se sentem discriminados ou não sofrem qualquer preconceito, pelo menos dos colegas.
Dez horas. Surpreendentemente cedo para seus padrões, Sr. Maicon chega no departamento com sua mala 007 lilás. Olha Geraldo e faz um sinal para que ele vá até sua sala.
Geraldo larga a caneta sem ter a chance de pintar o último quadradinho do desenho que fazia no canto de um relatório recebido. Entra na sala de Sr. Maicon e o diálogo que se segue é surreal, ou seja, uma normalidade naquela sala:
- Sim, chefe?
- Geraldo, quero esse Chicão fora daqui! Ainda hoje. Ligue para o RH imediatamente.
- Fora daqui, chefe? Como assim?
- Demissão, ra-re-ri-ro-rua, bye bye, tchauzinho…
- Mas… Sr. Maicon, por que isso agora?
- Esse Chicão é um… Um jumento!
- Sim. Ele é mesmo. Um jumento. Com três faculdades e duas pós-graduações, chefe.
- Não, não estou me referindo a esse tipo de jumento, estou me referindo a… Coisas de jumento. Jumentices.
- O que são coisas de jumento, chefe?
- Coisas que jumentos fazem no banheiro, por exemplo.
- Que coisas, chefe? Estou ficando assustado.
- Coisas horríveis, Geraldo. Hoje eu vim trabalhar cedo, estava bem disposto, passei no banheiro para lavar as mãos e o que vejo lá? Algum jumento escreveu no espelho: O SR MAICON É MULHERZINHA.
- Ah… Mas, Sr. Maicon, posso perguntar como o Sr. deduziu que foi o Chicão que escreveu aquilo?
- Na verdade não importa se foi ele ou não. O que importa é que tenho que punir alguém, entende? Como exemplo. Que seja esse jumento aí. Ele não faz falta. É um animal. Sem ofensas.
- Ok, Sr. Maicon, eu ligo para o RH e peço a demissão do Chicão, mas aí, quem fará o seu relatório para o presidente este mês?
- Como quem fará? Quem sempre faz. O meu coordenador, ora.
- Bem, Sr., mas quem o Sr. acha que faz o relatório para o seu coordenador?
- Não vai me dizer que é o supervisor?
- Pois é, Sr. Maicon, e adivinha quem faz para o supervisor?
- Chicão?
- Bingo.
- Melhor não mandar ele embora, Geraldo.
- Sim, chefe, eu sabia que o Sr. iria reconsiderar. Não vou ligar para o RH. Até mais…
- Espere aí, Geraldo, você ainda não está dispensado.
- Pois não, chefe, o que o Sr. deseja?
- Mande embora aquele segurança mal encarado lá da portaria.
guida.ribeiro
TODO MUNDO MUDA
Olá,
IdioTIssincrasias tem tudo a ver comigo, mas o meu cachorro, Geraldo, nunca conseguiu falar essa palavra.
Então, mudamos a cara do blog e o nome também.
Geraldo diz que amor é nome de paçoca tem a ver com todo mundo.
Bem vindos!
um beijo,
guida.ribeiro
Geraldo e a COMUNICAÇÃO CORPORATIVA
EMAIL CORPORATIVO 1
De: Geraldo Só Geraldo
Para: Maicon Charlotte
Chefe, já estou há várias semanas aqui em minha estação de trabalho sem fazer praticamente nada. Gostaria de saber quando será aquele meu teste para promoção a Supervisor que combinamos no dia da minha admissão.
Um abraço,
Geraldo
Assistente de PN
—-
De: Maicon Charlotte
Para: Geraldo Só Geraldo
Geraldo, o teste já está ocorrendo. Você está indo bem, mas para ser promovido a uma posição de liderança terá que esquecer o “praticamente”.
Abraços,
Maicon Charlotte, o macho
Gerente Geral
—-
EMAIL CORPORATIVO 2
De: Geraldo Só Geraldo
Para: Roberto da Çilva
Caro Roberto, gostaria de saber porque meu nome está errado no email corporativo. Meu nome é Geraldo. Só Geraldo, e não, Geraldo Só Geraldo.
Fico no aguardo,
Geraldo
Assistente de PN
—-
De: Roberto da Çilva
Para: Geraldo Só Geraldo
Geraldo, seu nome foi incorretamente digitado pelo estagiário que cadastra os nomes dos emails aqui em TI. Em algum tempo isso será ajustado. Para ter uma idéia desse tempo, veja, por exemplo, meu caso: o meu nome também foi digitado errado quando entrei… E já trabalho aqui há cinco anos. Uma solução paliativa é escrever seu nome correto na assinatura do email, como você está fazendo, e como eu também faço.
Boa sorte,
Fernando da Çilva
Gerente de TI
—-
EMAIL CORPORATIVO 3
De: Geraldo Só Geraldo
Para: Kenia Genty
Cara Kenia, estou intrigado com o nome do meu cargo. Assistente de PN. Tentei descobrir do que se trata com meu superior, Sr. Maicon, mas ele mudou de assunto. Você pode me ajudar?
Aguardo,
Geraldo
Assistente de PN
—-
De: Kenia Genty
Para: Geraldo Só Geraldo
Caro(a) colaborador(a). Seu comprovante de pagamento estará disponível amanhã, em caso de dúvida a respeito dos cálculos, acesse o Portão Corporativo. Ao persistirem os sintomas, abra um chamado no Centro de Atendimento ao Colaborador. Você é muto importante para nós.
Obrigado(a),
Kenia Genty
Gerente de RH
—-
guida.ribeiro
Amigo Imaginário
Pai, conta uma história de bombeiro? Conta uma que o pai não sai. Uma que ele apaga fogo dentro de casa, tem? Eu não queria ir hoje, pai, conta só uma. Eu não gosto de ir muito a essa escola. Mas aí, você podia ficar comigo um pouco lá. Ontem o pai do Cesário ficou. Ninguém falou nada. O pai do Cesário tem barba, sabia? Você não tem barba, né pai? Eu posso ter barba? Ontem a tia chamou meu nome e eu levei um susto. Mas ela disse que era para falar presente. Foi engraçado porque ela disse Stephanie da Silva, mas eu não falei presente. Eu já comi tudo. Não quero o leite. Posso levar minhas figurinhas hoje? Eu acho que o Lilo pode ir pra escola porque existe até hotel pra cachorro.
Mãe, quando o papai vai voltar?
guida.ribeiro
poemas de guida – volume I
o amor é uma pedra para se topar o dedo, 2007
não quero ter pretensões, são idiotas
não quero pensar em falta, me esgota
não quero fingir que não sei que abri a porta
torta, ou não, abri a ilusão
e agora espero, qual o fim
qual, o começo
e o pior, não me despeço do amor
não quero ter sensações, mas tenho
e o medo que me emborca é um esterco,
a merda que ajuda a viver
não quero fingir que não sei que vivo um sonho
tenho, ou não, vivo a solidão
e agora me exaspero até o fim
até o começo
e o pior, não sei se esqueço o amor
—
montanha, 1994
Subo alguns centímetros da montanha
Russa, roço a alma nas ferragens
Além de causar pânico, me ganha
A cada nova altitude outra safra de bobagens
Uma vez lúcido o homem perde sempre
Toda gama rica, valor da verdade
Que só vê quem tem, quem deixa, quem cede
Cada centímetro para o alto avesso de vontade
—
parte, 1993
Deus fez o homem e a ignorância
Vestida de olhares, bocas, pernas, dentes
Vestida de sentido, intenções, fragrâncias
Despida em sonhos meros de paixões latentes
Deus fez o homem e a parte de um todo
Vestida dez por cento de virtudes bestas
A fatia frutífera de um quase-bolo
Que se inclui ao meu sangue na mordida certa
—
menino, menina, 1994
Qual o sentido?
Menina, menino
Menino, menina
Falso abrigo
Menino, menina
Menina, menino
Sonha comigo
Menina, menina
Menina, menina
Brinca escondido
Menino, menino
Menina, menina
Qual o pecado?
Qual o seu salto?
Qual meu papel?
Doce ou amargo?
—
farpa, 1993
Ela era e eu erro, cansei
Ele erra e eu dela passei
Ele é ela e eu era, já sei
Ela e ela, ele e ele, o que?
Ele e ela, eles e eles, o que?
Elas e ele, eles e ela, o que?
Tudo a mesma… Espera
Eterna
Interna
—
não é verdade, 1993
Sou um revólver
Um sobrenome que mudou
Uma figura sem linguagem
Uma bobagem
Descarregada e sem pudor
Não sou de me envolver
Confundo as imagens
Inferno de circo é palhaço doente
Inferno de louco é coração
Um pouco de muita paixão não dói
Mordida de tubarão não dói
Saída de covarde é o fim
Chegada de covarde é o outro
Alavanca de covarde, minha vontade
Estorvo não é fatalidade
Ainda sou eu quem mais ama…
Não é verdade
—
avesso – 1997
Onde você está agora, um dia meu amor
Onde, se não me apavora sentir o seu amor
Ou a falta dele
A falta dele cortando minha garganta
Eu estou outra sem você
Mais pronta
Uma parte de mim que se vai não te alcança
O sexo que não há mais
O avesso
Onde minha lágrima que tanto já correu
Pela densa estrada do rosto seu e meu
Um só gesto corta
Um só gesto corta o céu que nos encanta
Sou meio morta sem você
Mais tonta
Uma ponta de mim que se cai e enfrenta
A luz apagada no cais
O avesso
Onde sua porta pra que eu possa fechar
A natureza morta não vai mais voltar
A brilhar na pele
A brilhar na pele feito o sangue que espanta
Sou toda escassa sem você
Mais parca
Uma ponte em mim se faz e estanca
A febre de te amar demais
Do avesso
—
Compilação de poemas de guida.ribeiro
chinchilas
Eu me lembro de um espelho, o que foi decisivo naquele dia. Uma revelação. Antes disso, desequilíbrio, impaciência e incômodo.
Foi por uma chinchila que eu me apaixonei. Se fosse para eu escolher, se eu pudesse, seria um urso, um puma ou um bisão, pelo impacto, grandeza, ideologia. Mas amor não se escolhe. Não me culpo. Hoje tudo é óbvio, hoje eu saberia bem o que fazer desde o principio, mas ali, não. Havia carga emotiva demais.
Era evidente que tudo um dia chegaria ao insuportável, não tanto pelos pelos, mas muito mais pelo modo doentio dela não dizer palavra. O silêncio, nunca engoli. Chato. As bananas com casca, a tampa da privada, o modo estúpido com que ela roia coisas, eu cheguei até a achar bonito no começo, mas o silêncio, ah, esse me matava.
Sou péssima para guardar datas, não sei contar o tempo, mas posso até arriscar que passamos anos juntas nesse cenário de um lado mágico, de outro, doloroso. Alguns momentos eram fabulosos. Corríamos juntas pelos parques, visitávamos amigos, sorríamos uma para a outra como se o mundo fosse nosso, ela sabia muito sobre tantas coisas, tenho quase certeza. Entendia as pessoas ao seu redor, acho. Era muito resoluta e segura de si, que dava gosto. Era fabulosa. Uma chinchila fabulosa. Mas o silêncio…
Entrei em depressão. Procurava maneiras de começar um diálogo que nunca acontecia. Comecei a me sentir duas, uma que gostava de uma parte de minha vida, o vislumbre, outra que detestava o resto, o vácuo.
Um dia estourei. Berrei. Berrei de doer a goela. Falei dos pelos, falei das bananas, falei do roc roc grotesco esperando que ela dissesse algo. Tentei de toda maneira arrancar uma palavra, uma sílaba, um grunhido que fosse, mas ela se manteve absolutamente quieta. Esperou que minha raiva passasse, levantou-se da poltrona, foi até o quarto e voltou com um espelho. Sentou-se ao meu lado no sofá e segurou o espelho bem a nossa frente. Nele pude ver seu rosto peludo e o meu sem pelo algum. E quando vi uma lágrima riscar meu rosto até o nariz, entendi que um romance entre nós seria loucura, uma tremenda impossibilidade, se eu não me calasse.
Então me calei.
guida.ribeiro
a volta do Geraldo
- Eita! Onde estavas, cachorro?
- Estava procurando um emprego, Guiga… E achei!
- Jura? Eu estou tentando perder o meu.
…
- Mas, Geraldo, meu querido, você não estava fazendo aquele tal de caminho…
- Das índias?
- Não, de Santiago. Santiago da Compostela.
- Nunca. Europa está em baixa, Guiga. Agora eu quero din din.
- Por isso, o emprego?
- Não, o emprego é para gastar dinheiro. A gente gasta com gravata, com almoço, com gasolina.
- Ué, você não tem carro, Geraldo.
- Mas você tem, Guiga. E vai me levar todo dia para meu trabalho, não vai? Hein?
- Não sei, não… Já tenho problemas demais.
- Vai valer a pena, Guiga. Eu vou contando todo dia uma historinha do meu dia-a-dia e você pode fazer este bloguezinho dar ibope.
- Ora, mas eu não preciso disso, Geraldo. Já tenho muito ibope.
- Bem, não sei.. Tenho minhas dúvidas, quer saber por que?
- Fala, Geraldo…
AMOR É NOME DE PAÇOCA, por exemplo… como você pôde ser tão rígida com o santo verbo?
Em MEXEDORES DE PAU, as mulheres são vingadas, mas puxa vida, onde você quer que eles ponham a mão?
DATILOGRAFIA ta certo, mostra um pouco de algumas técnicas literárias, uma brincadeira interessante, mas fala tanto pra dizer nada?
GERALDO VAI ÀS COMPRAS é um desbunde do absurdo. Você sempre me colocando como um monstro…
A saga LEGAL MESMO É PEGAR AS AMIGA deixa qualquer fã de Guerra nas Estrelas… Com raiva.
RATOS PLÁSTICOS mostra toda minha autonomia, mas e daí? Não vejo rato algum.
FUCK-SES ELE NEM É BONITO é a cara de quem gosta de afogar as mágoas em um copo de bebida. Você sempre me convence a te acompanhar nessa vida etílica.
ORDENS AO CÉREBRO mostra o quanto você é absurda, Guiga.
PELO QUE CATIVAS é o fim! Eu tentando dormir com uma historinha e você fazendo traquinagens.
DIA MUNDIAL 100 CARRO não precisava, né?
Agora, o pior de tudo VOTE EM MIM… Ali você percebe que tem apenas 13 leitores! Há, há, há.
.
- Ok, Geraldo. Você venceu. Vamos daqui pra frente falar do seu trabalho.
- Isso. Amanhã, no poste, às sete e meia?
- No poste?
- Claro, né Guiga? Ao sair para o trabalho é sempre bom passar antes no banheiro.
.
guida.ribeiro
diana
tenho sapatos nas mãos
estrelas na mente e no pescoço
na boca um gosto
de bisnaga na chapa com queijo
amigos bem à minha frente
meu olhar para em alguns lados
mesmo quando estou de costas
participo deste poema diferente
por fazer parte de um universo de fatos
que a escritora agora aposta
tenho sapatos nas mãos
e a vida inteira pela frente
isto eu posso viver
sou uma personagem do seu desejo
.
guida.ribeiro
de graça
O pôr-do-sol era deslumbrante mesmo em meio ao cinza da cidade dura. Ela viu tudo como se pudesse pegar o cenário com a mão. Viu os diamantes se formando um a um na paisagem de luzes que se destacava quando escurecia. Viu as cores avermelhadas perdendo cor num gradiente vivo.
Sentiu-se mais humana, mais real. Sorriu de graça, da mesma maneira que se ama de graça a um amigo que diz que gosta da gente de graça.
Pensou finalmente, embora tivesse vivido isso sempre, uma verdade: amor não é só sexo. Amor é amor.
guida.ribeiro
pote
parei de pensar em morrer
você morreu pra mim porque nasceu e não podia
viver não é tão ruim assim
sem você pra me dizer que sempre me amaria
nada é pra sempre
amor não é fazer cera
vivi contente com você
como num fim de feira
redescobri que o mundo é cheio de idéias patentes
covardes e conceitos de freira
ainda assim não me matei
eu quis pra mim uma emoção bem forte
as lágrimas eu já sequei
toda dor tem um fim e o que eu sinto cabe fácil num pote
nada é pra sempre
amor não é fazer charme
quem sabe haja alguém pra você em Marte
não me esqueci que o mundo é essa miséria
mas em meu campo de visão
já não há mais só terra
“POTE” – Guida Ribeiro, 1993
uma condição
Ela ainda podia ver as imagens quando fechava os olhos. Podia sentir como se ainda vivesse aquele momento. Podia ainda ouvir o timbre intenso e macio da voz que chegava a seus ouvidos. Podia lembrar as palavras uma a uma e ao mesmo tempo montar de diversas maneiras os sentidos das frases que ouvia. Podia ainda sentir os pelos levantando, os lábios procurando, os desejos sendo conhecidos e saboreados, um por um, dose por dose.
Podia se lembrar de todos os sons cuidadosamente colocados na cadência como comentários de jazz, perfeitos em cada espaço dos compassos, montando uma magnífica obra de arte.
Podia ver seus dias vividos passarem num zapt enquanto via seus dias futuros sendo remodelados, e em seguida desmantelados, como quem acende um cigarro e logo o entorta todo no cinzeiro sem fumar.
E podia viver, finalmente podia viver… E havia apenas uma condição: não podia se apaixonar.
guida.ribeiro
citações II
Foi numa daquelas conversas alheias que a gente pega sem querer numa fila ou na mesa ao lado. Ela disse que não sabia quanta lágrima ainda tinha que fazer ( isso mesmo, fazer) para ser feliz no amor. Aquela frase me fez pensar em algo que ouvi uma vez sobre o que contava um dos livros sagrados da humanidade: se uma mulher fizesse (sim, fizesse) mil lágrimas, um milagre aconteceria. Não necessariamente para ela, mas aconteceria.
Seria esse o limite da dor?
“Milágrimas
Música: Itamar Assumpção
Letra: Alice Ruiz
Em caso de dor ponha gelo
Mude o corte de cabelo
Mude como modelo
Vá ao cinema dê um sorriso
Ainda que amarelo, esqueça seu cotovelo
Se amargo foi já ter sido
Troque já esse vestido
Troque o padrão do tecido
Saia do sério deixe os critérios
Siga todos os sentidos
Faça fazer sentido
A cada mil lágrimas sai um milagre
Caso de tristeza vire a mesa
Coma só a sobremesa coma somente a cereja
Jogue para cima faça cena
Cante as rimas de um poema
Sofra penas viva apenas
Sendo só fissura ou loucura
Quem sabe casando cura
Ninguém sabe o que procura
Faça uma novena reze um terço
Caia fora do contexto invente seu endereço
A cada mil lágrimas sai um milagre
Mas se apesar de banal
Chorar for inevitável
Sinta o gosto do sal do sal do sal
Sinta o gosto do sal
Gota a gota, uma a uma
Duas três dez cem mil lágrimas sinta o milagre
A cada mil lágrimas sai um milagre”
… talvez seja, e o gosto do sal é bom.
guida.ribeiro
não vou falar mais nada
… O fato é que o mundo (a terra) realmente é um bom lugar pra se viver.
Falo isso porque tenho uns amigos que moram em Vênus e lá não é tão legal quanto aqui. Lá as pessoas sabem o que as outras pensam.
Saber o que os outros pensam tira de nós a grande possibilidade mágica: sonhar.
Já pensou nisso?
Seja lá o que você pensou, eu não sei, não soube, não nada…
e assim sendo, não vou falar mais nada.
guida.ribeiro
piriri
A solidão é um saco. Nele posso colocar o que quiser: Almas passadas, (mal-passadas), córregos de tristeza, mares de suores a frio, solidões, aurora bureau, cachorro-quente, trólebus, pimenta malagueta e camarões laguna. Falando nisso comi alguns maravilhosos no último sábado. Talvez eles sejam os grandes culpados desse meu piriri do tamanho do lago ness, com monstro e tudo. Isso não os faz maus. Continuam maravilhosos.
É assim a vida. O crápula de hoje foi o maravilhoso de ontem e fatalmente será o esquecido de amanhã.
Quem?
Esqueci.
guida.ribeiro
o mundo vai ficar diferente
- Guiga, a Maria está me dando aulas de escrever e ler. Estou adorando. Já estou bem adiantado.
- A Maria está te dando aulas? Mas e a faxina?
- Não se preocupe, ela me dá aulas enquanto assiste Oprah.
(…)
- Olha só, Guiga… Vou ler aqui um pedaço da Folha de hoje. Passa pra cá.
- Quero só ver.
- Aqui, essa notícia parece boa, Guiga:
“Al Qaeda é como McDonald’s, diz analista”
- Essa é difícil, Geraldo. Nem eu consigo ler direito isso aí.
- Não é não. Vai ser essa mesmo. “A-U…CA–O …”
- Vou te ajudar. Se fala “Alcáida”. A rede terrorista.
- Ta. De novo: “ ALCÁIDA É CO-MO MEC DO-NAS, DIZ ALA-NIS-TA “
- Muito bem! To boba de ver, Geraldo. Você quase não errou.
- É. Consegui ler, mas não entendi nada. Por que ele ta dizendo que a ALCAIDA é como o MEC DONAS?
- Hum… Deve ser por causa das minhocas.
(…)
- Que foi Guiga, por que essa cara?
- Fico imaginando, você sabendo ler e escrever. O mundo vai ficar… diferente.
- Eu to pensando até em arrumar um emprego.
- Pega os Classificados aqui. Deve haver várias vagas para cachorros.
- Qual o problema, Guiga? Eu posso começar como supervisor, não preciso começar como gerente.
- Ah, ta. Assim fica bem mais fácil.
- Por que, você acha que eu não tenho perfil?
- Bem…
- Ora, Guiga, considerando as pessoas que trabalham onde você trabalha, você acha que eu tenho chance?
- Vou ajudar você a procurar. Passa um pedaço dos Classificados pra mim.
guida.ribeiro
super beijo
O que será que quer dizer super beijo? um beijo quer dizer que a pessoa é econômica. um beijinho, que ela tem um carinhosinho por você, beijocas, que ela deve ter nariz de pipoca, mas e super beijo? O que será que quer dizer?
- Guiga, você ta delirando? Palavras não querem nunca dizer nada.
Hum… entendi. O Geraldo, um cão intrometido, inconsequente, bagunceiro, alcoólatra e muito querido tem razão.
guida.ribeiro
Saxofone
Solidão? Eu não. Solidão é para os farcos. Ou frotes… algo assim.
Eu estou aqui em casa, minhas unhas crescendo, a noite caindo, um vinho no copo acabando, e a vida sendo tocada. Como a um velho saxofone reluzente.
PFFFÓÓÓÓÓÓÓÓÓÓÓÓÓÓ….
Ou seria um Cello?
Seja o que for, a vida é mágica. E linda.
O copo é de conhaque, mas quem precisa de copos certos pra ser feliz? Felicidade é um enigma. Daqueles que a gente fica doido pra decifrar…
Hoje recebi minha família aqui em casa. Meu sobrinho mais novo e eu vamos escrever um texto juntos sobre uma idéia muito legal que ele teve. Ainda quero escrever uma música com meu sobrinho mais velho e estamos todos pensando em escrever um livro (tema idealizado pelo meu brother, a ser revelado mais tarde).
Almoçar com a família é enigma decifrado.
Solidão? Eu não. Além do que, não estou completamente sozinha. Formigas moram aqui.
- Guigaaaaaa!
Ta, e o Geraldo também.
guida.ribeiro
datilografia
Então ela se sentou em frente ao laptop e sem olhar para o teclado, só vendo a tela do editor de textos, pensou umas palavras:
amar… sonho, planos, presentes, jantares, conversas, risos, olhares, coincidências, sentimento… ilusão, novo apartamento, nova profissão, nova vida. fim. confusão, pés pelas mãos, desencontros, solidão e… esperança. mais sonhos, mais planos, mais sorrisos… ah, desilusão. solidão. depressão. tristeza, dor dentro, lágrimas, lamentos, silêncios. mil silêncios. na balança o que foi ruim parado do lado esquerdo do que foi bom.
Com os dedos pousados nas letras do teclado pensou ainda que seria para sempre grata a sua mãe, por tê-la matriculado na escola de datilografia ao lado da casa onde morava quando tinha quatorze anos.
E escreveu na tela branca à sua frente:
amar… foi bom.
guida.ribeiro
Geraldo vai às compras
Sete horas da noite. Mal fechei a porta da sala e já gritei, com a bolsa escorregando do ombro enquanto virava a chave na fechadura:
- Geraldoooo, cheguei.
Não houve resposta. Coloquei a bolsa no aparador e o silêncio prevalecia. Nem sinal de Geraldo. Fiquei tentando imaginar onde meu querido cão poderia estar naquele momento…
Sete e cinco da noite, Shopping Villa Lobos. Um cão entra pela entrada central e para, contemplando bem à sua frente a parafernália de bonecos e enfeites de Natal. Procura um osso. Nenhum. Resolve caminhar pelos corredores. Canções natalinas embalam os passos de suas quatro patas: DINGO PLÉC DINGO PLÉC DINGO PLÉC PLÉC. Decide entrar em uma loja de lingerie. A vendedora, atribulada pelo corre-corre da estação nem nota o cachorro olhando os conjuntinhos de calcinha e sutiã, porém, quando percebe um potencial comprador diz:
- Pois não, senhor? Está procurando um presente?
O cão encara a moça surpreso e tenta entender como aquela mulher podia ser tão perspicaz e saber exatamente o que ele queria. Na certa era uma adivinha, pensou.
- Sim, senhora. Eu gostaria de comprar um presente.
A vendedora, talvez por estar tão preocupada em vender, vender e vender, não reparou que conversava com um cão.
- Temos vários modelos, senhor. Veja este aqui, super anatômico, e este outro, com um enchimento discreto, mas bem eficiente.
- Um desses seria ótimo – falou o cão agora com o rabo em movimento.
E a moça riu. O cão balançou a cabeça e continuaram a discutir vários aspectos técnicos de muitos pares de calcinha e sutiã com enchimento.
Após alguns minutos, o cão decide pelo conjunto com renda, lilás. A vendedora separa as peças e diz feliz:
- Ótima escolha… Qual seu nome senhor?
- Geraldo.
A moça caminha até o caixa pedindo para que o cão a acompanhe. Lá, a operadora abaixa a cabeça em frente ao balcão para conseguir ver o cachorro que agora esta sentado, logo a frente.
- São sessenta e nove reais, senhor Geraldo.
O cão mostra o dinheiro levantando-se e entortando um pouco o pescoço. Uma nota de vinte e uma de cinqüenta presas à coleira puderam ser vistas com o movimento. Junto às notas havia um cartão no qual o cão cochichou à operadora de caixa que escrevesse algo, e ainda disse a ela que podia ficar com o troco.
Dez horas da noite ouço um latido vindo do lado de fora da porta da sala. Vejo através do olho mágico Geraldo, de costas, parado. Abro a porta e quando o cão se vira, percebo uma sacola de presente presa a sua boca. Ele me olha com cara de quem fez arte enquanto entramos, e já na sala, posiciona-se à minha frente para dizer:
- Éff fra ochê, jhidja!
- O que, Geraldo? Não entendi nada. – Digo, olhando a cena com certa indignação.
O cão solta a sacola no chão devagar, a empurra com o focinho em minha direção e diz:
- É pra você, Guiga.
Fico por alguns segundos sem ação. Senti alívio por não ter brigado com ele por ter chegado tão tarde.
Fui abrindo devagar o pacote dentro da sacola de marca famosa. O papel de seda branco tinha um aroma floral. Geraldo, sentado, me olhava de maneira apreensiva. Achei que fosse porque estava com medo de ser repreendido, mas como repreender um cão tão carinhoso? Sorri e senti grande emoção. Uma mini-lágrima caiu no papel de seda, bem quando eu consegui ver o que ele envolvia.
Não pude conter minhas palavras que saíram automaticamente:
- Um conjunto de sutiã e calcinha, lilás com rendas?
Olhei confusa para Geraldo, que agora estava deitado com a língua para fora.
- Você me deu uma lingerie, Geraldo? – Falei com olhar desacreditado.
– São lindos – Menti.
Ele não disse nada e ainda por cima olhou para o lado, como se algo estivesse errado. Mas o que estaria errado em um cachorro dar um presente singelo (de gosto duvidoso, mas singelo) para sua dona. Eu estava um tanto atônita, não podia disfarçar, mas era um presente. Embora fosse tamanho PP, com enchimento enorme e eu não apreciasse a cor lilás, era um presente.
Ao mexer na sacola, ainda um tanto embaraçada, notei o cartão. Enquanto o pegava, Geraldo se levantou com pressa, o que o fez escorregar no chão liso. Se recompôs e ficou imóvel bem a minha frente. Olhava o cartão aflito. Tive a sensação de que ele não queria que eu o lesse, mas não pude evitar, estava escrito em letras garrafais:
PARA FIFI COM TODO MEU AMOR, GERALDO.
Onze horas da noite. Geraldo está deitado próximo à área de serviço, olhando a lua. Vou tomar água e resolvo conversar para quebrar o gelo:
- Quem é essa Fifi afinal? É a Fifi do 63?
- É, ela mesma, Guiga.
- O que aconteceu entre vocês?
- Nós saímos para passear uma vez… Resolvi comprar um presente para conquistá-la.
- E ela não gostou do presente?
- Ela achou lindo, mas quando viu que só tinha um par de sutião, me chamou de ignorante.
- Sutiã… Por que ignorante?
- Porque ela disse que para ela teriam que ser quatro pares.
Dia seguinte, oito horas da manhã. Recebo um telefonema no escritório:
- Dona Guida, Feliz Natal para a senhora também.
- Ah, obrigada, Maria. Tudo bem por aí em casa? Gostou do panetone?
- Gostei sim, dona Guida. Mas, a senhora esqueceu de deixar o dinheiro da diária.
- Poxa, mas eu deixei os setenta reais aí na mesinha, Maria…
- Só tem um cartão aqui na mesinha. De um lado está escrito “Maria, Feliz Natal” e de outro “para Fifi com todo meu amor”, mas não tem dinheiro nenhum.
- Maria… Posso pagar em cachorro?
guida.ribeiro
Eu vou falar sobre meu cachorro…
A porta se abriu e uma senhora com cara de Marilyn Monroe, (com a idade que ela teria agora se estivesse viva), apareceu com um sorriso que parecia cortar seu rosto pela metade.
- Senhora Guida? Vamos lá?
Eu entrei com cara de quem não queria entrar, mas entrei. O cheiro lembrava pinho sol, a decoração também.
- Sente-se – disse a velha senhora, ainda com o sorriso cortador de rosto, apontando para uma poltrona esverdeada.
- Muito bem, o que a trás aqui?
Tive vontade de dizer logo que o motivo era meu cachorro de papel, mas achei melhor preparar o terreno:
- Eu vou falar sobre meu cachorro.
- Cachorro – repetiu ela sem qualquer entonação. No início imaginei que fosse uma pergunta, depois achei apenas que ela estava fazendo como todos os psicanalistas: repetia a palavra para passar o tempo.
- Cachorro – falei com a mesma entonação, ou melhor, com uma oitava acima, e falei de propósito, agora também para passar o tempo, mas com estilo.
Ficamos por uns três segundos nos olhando. Ela quebrou o silêncio:
- Fale-me sobre o cachorro, então.
Eu achei que ela não entenderia de forma correta se eu falasse assim, de supetão sobre Geraldo, com isso tentei ser branda e disse o que me veio à mente:
- Meu cachorro está mal.
Foi nítido o destempero em seu olhar marilyn-monroeniano. (Faltava-lhe a pinta). Inicialmente ela torceu o nariz bem sutilmente. Deve ter sido quando imaginou: “ah, mais uma louca”, mas em poucos segundos seu rosto ganhou um ar nítido de alegria. Deve ter sido no momento em que pensou “ah, mais uma feliz fonte de renda duas ou três vezes por semana”.
Não acho que todos os psicanalistas sejam necessariamente capitalistas… Há aqueles que pensam em dinheiro também.
Um amigo uma vez disse que sua namorada precisava de três sessões de psicanálise por dia, e seriam noventa sessões por mês, ele disse, em uma conta feita às pressas. Pressa de quem se esquece que há sábados e domingos sem sessões. Se não fosse assim, que tempo livre os psicanalistas teriam para gastar o dinheiro?
O silêncio imperava em pinho sol.
Eu pisquei calmamente, calada. Tentando fazê-la ler meus pensamentos, sem sucesso.
- Como, mal? Seu cachorro está doente? – perguntou a senhora com ar de intelectual.
Respondi com ar de nada, já sem paciência:
- Não exatamente doente, ou eu o levaria ao um veterinário. Não é?
Ela, sem graça, ficou imóvel com o olhar fixo em meu olho direito e falou bem baixinho e pausadamente:
- Fale-me sobre o cachorro, então.
É engraçado como os psicanalistas são indiretos o tempo todo. Não seria muito mais produtivo se ela perguntasse com todas as letras: “o que você quer dizer com meu cachorro está mal, afinal”? Mas, não. Obviedade é feio.
Eu poderia falar sobre as caminhadas solitárias de Geraldo pelas tardes quentes, enquanto eu trabalhava aos sábados, poderia falar de sua feição por um inseto, poderia falar de sua admiração pelo Arak, mas achei melhor encurtar aquilo tudo e dar logo eu mesma o diagnóstico:
- Meu cachorro está deprimido. É isso.
Tive certeza de ver uma ponta de um sorriso de deboche naquele rosto antigo. Enquanto me arrependia fortemente por ter entrado naquela sala, fui tentando achar uma maneira de não pagar a consulta.
A doutora me olhava como se quisesse desvendar algum segredo. Foram terríveis segundos, talvez minutos em profundo silêncio até que ela finalmente começou a falar olhando para o relógio:
- Está bem. Quero te ver aqui três vezes…
Porém, mais do que rapidamente, sem deixá-la terminar a frase, eu disse:
- Mas eu não quero te ver aqui mais nenhuma vez!
Ela se assustou com meu tom sério, e com os olhos arregalados grunhiu:
- O que?
Eu, já sem qualquer escrúpulo falei:
- Vim aqui por causa do meu cachorro. E ele é quem deve decidir se quer ver você ou não. Desculpe-me, mas talvez não haja empatia entre vocês, entende? Pode ser que ele não goste muito da sua… – me faltou a palavra, mas após uma breve pausa, soltei – “linha”.
- Linha? – repetiu ela, agora com entonação abismada.
- Linha, exatamente, linha. Talvez ele não se identifique com Freud e prefira Chico Buarque, essas coisas. Vou perguntar e depois a aviso, ok? – e fui me levantando calmamente da poltrona esverdeada.
Enquanto ela dizia que não era do tipo de psicanalista que tratava animais, um PLIM em meu celular avisou a chegada de uma mensagem SMS que dizia:
i’.?!..@(‘.#
Li a mensagem, mostrei para a psicanalista que agora parecia me olhar com raiva.
- Está vendo, tenho de ir agora. Meu cachorro me chama – falei, guardando o celular na bolsa e fui saindo em direção à porta.
Quando eu pus a mão na maçaneta, a velha senhora, de onde estava, sentada em uma outra poltrona também esverdeada, disse:
- São duzentos reais pela consulta. E a propósito, não se diz “linha”, se diz “escola” e a minha é lacaniana.
Abri a porta, dei um passo para fora, virei o rosto e disse sem pestanejar:
- Sim, como você leu na mensagem do celular, meu cachorro disse: “venha logo, não gosto de Lacan, compre um Arak na volta”.
Cheguei em casa com um osso, dos grandes. Fiz festinha para Geraldo que abanou o rabo sorridente abocanhando o osso.
Enquanto mastigava o grande pedaço de tutano, Geraldo me perguntou:
- Por que eu ganhei presente hoje, Guiga?
Respondi com uma ponta de sorriso no rosto:
- Quero te ver feliz.
- E o Arak?
- Você precisa se cuidar, Geraldo.
Ele fez que sim com a cabeça e eu não resisti quando ele olhou para mim com aqueles olhões de gato-de-botas e pediu:
- Passeia comigo hoje, Guiga?
Sorri, fiz que sim com a cabeça, e enquanto ele abanava com rapidez o rabo, falei:
- Só deixa eu ligar para a operadora antes, Geraldo… Eles continuam mandando mensagem sem nexo para meu celular.
guida.ribeiro
Legal mesmo é pegar as AMIGA – parte II, prólogo, epílogo e fim
LEGAL MESMO É PEGAR AS AMIGA - Parte II
- Vai, Geraldo. Desembucha! Quem é Lala?
- Ah… se eu te contar, vai ser o fim dela, tenho certeza.
- Por quê?
- Porque sim. Você tem mania de limpeza, essa coisa de perfume pra cá, perfume pra lá, droga…
- Vai, conta!
- Ta bom…
- E não faz cara de cachorro lambão. Conta.
- Ta.
LEGAL MESMO É PEGAR AS AMIGA – Prólogo (por Geraldo)
Devia ser umas 15:32h de um sábado quente. Minha dona não estava em casa. Dizia sempre que alguém tinha que trabalhar para pagar o Arak que eu bebia. Não sei, não… Trabalhando sábado?
Saí para meu passeio da tarde, descendo os sete andares pela escada para que ninguém brigasse comigo. Passei displicente pelo portão de entrada. O porteiro disse alguma coisa que eu não entendi. Nada parecia fazer sentido na minha solidão. Andei uns dois quarteirões em marcha bem lenta, cheirando sem ritmo poucos arbustos e alguns portões. Nem tive vontade de correr atrás de carro algum. Cachorros, quando tristes, não têm ritmo para cheirar as coisas por aí nem vontade de correr. Vi mais a frente uma sombrinha boa e deu uma preguiça danada. Deitei-me devagar e fiquei apreciando o cantar dos pássaros. Pensava em minha dona, que certamente estava no trabalho.
De repente comecei a ouvir, entre um cantar e outro, uns PÓINS diferentes. Era um TUID, TUID, TUID e depois vinha um PÓIM, PÓIM…
Fiquei intrigado com aquele barulhinho e olhei para baixo. Nem acreditei quando vi, acho que foi uma das sensações mais estapafúrdias que tive em minha vida. Pensei em esfregar os olhos para ver se era verdade, mas desisti quando vi o tamanho de minhas unhas.
Ela estava no chão, do meu lado direito, ali, rindo para mim (acho). Deu mais um salto e gritou:
- Geraaaaaldoooo!
Meus pelos se arrepiaram de cima abaixo. Era ela, ali, na sombra de uma árvore em plena Perdizes quente.
- Lala… Não é possível que seja você. Aqui?
E naquela sanha, eu quase lati de alegria. Ainda sorrindo, pulando feito uma maluca, Lala falou:
- Geraldo, nunca me esqueci de você, meu amigo! Os tempos do abrigo da Prefeitura foram tão bons…
Se foram, eu pensava. E ela ia PÓIM, PÓIM, PÓIM, pulando ainda mais, dificultando minha visão.
É difícil acompanhar os pulos de uma pulga, e Lala não era uma pulga qualquer, era uma amiga, uma amiga muito querida.
- Lala, por onde você andou? Há quanto tempo não nos vemos? – falei com os olhos mareados. (Não tenho certeza, mas acho que os dela também estavam.)
- Geraldo, me leva com você? Vamos reviver os velhos tempos!
Eu já tinha pegado algumas pulgas nesses meus passeios da tarde e minha dona não gostava nada, nada… Mas Lala era minha grande amiga. Sem pestanejar muito, convidei a pequena pulga para beber comigo, afinal, pensei: legal mesmo é pegar as amiga.
Quando cheguei em casa me coçava feito uma mula, mas estava feliz. Servi à Lala um pouco de Arak. Ela nunca pulou com tanta alegria. Bebemos por algumas horas e decidimos sair de novo para o passeio das 19 horas. Bem, ao menos eu achava que eram 19 horas.
Voltamos só de madrugada e tive problemas para abrir a porta pois além da coceira, a maçaneta cismava em se esgueirar quando eu a tentava pegar.
Quando finalmente entrei, Guiga, minha dona, me recebeu com um vaso de flores.
Ah, foi um lindo dia.
LEGAL MESMO É PEGAR AS AMIGA – Epílogo
- Vou levar você ao veterinário agora.
- Não faça isso, Guiga! Ela é minha amiga.
- Amigo de C é R.
LEGAL MESMO É PEGAR AS AMIGA – FIM
- Foi melhor assim, Geraldo.
- Lala era minha melhor amiga… Você não devia ter colocado o frontline, Guiga.
- Foi melhor assim, acredite.
- Por quê?
- Pulgas não são amigas de ninguém… elas chupam seu sangue, fazem sujeira, argh…
- Mas Guiga, nós passamos bons momentos juntos. É legal ficar com as amiga, não é?
- Com as amigas. Fale corretamente… E pensa bem, Geraldo, essa história toda, você amigo de uma pulga… Ninguém iria entender.
- Ninguém entende é como uma história começa da parte I, vai para a parte I,5, depois para a parte II, volta para o prólogo, vai para o epílogo e depois fim.
- Quem entendeu Guerra nas Estrelas entende isso tudo.
- Sei, Guiga Lucas.
- Vai deitar, R2-D2.
guida.ribeiro
Legal mesmo é pegar as AMIGA parte I,5
A estrada do escritor é o papel branco bem a frente de seus olhos. Mas de que adianta um papel, um teclado, um banquinho, um violão, se o Word não abre?
De que me servem vírgulas e plug-ins agora? Para quê drivers e firewalls? O Word não abre!
Para onde eu posso ir se corro, corro, corro e não consigo pegar meu rabo?
Por que o teto gira toda vez que eu tento pensar?
Com quantos paus se faz uma canoa?
O que sei da vida: Minha dona não me ama mais, pois não passeia comigo. Agora saio para passear sozinho. Saio às 15 e às 19 horas. Ou pelo menos é o que eu acho, já que o relógio da cozinha está parado.
Às vezes bebo, sim. Bebo mesmo. Arak. Uma bebida lusitana, indiana, ou caninana. Algo assim… Não me lembro de tudo. Às vezes é como se eu fosse um peixe, minha memória é curta. Por exemplo, nem sei porque vim aqui escrever… Ah, era para falar sobre uma amiga, a Lala… Mas já me esqueci de novo.
…
- O que…? O Word voltou a funcionar? Geraldo! Já disse para você não mexer no meu computadooooor! E quem é Lala?
guida.ribeiro & Geraldu
Legal mesmo é pegar as AMIGA parte I
Domingo, madrugada, ouço um barulho diferente na maçaneta da porta. Levanto-me com o coração na mão. Caminho descalça até a sala, tentando manter-me calma e em silêncio sem sucesso. Sou denunciada pelos tlecs que fazem meus pés enquanto caminho, o estalo de articulação que nunca me deixa. Paro em frente à porta. A maçaneta se move abruptamente como se um bêbado a tentasse abrir. Olho o interfone de canto de olho, meio que paralisada pelo medo, com ganas de chamar pelo porteiro que nunca consegue falar meu nome… E de repente ouço um grunhido meio abafado vindo do lado de fora:
- Fuck-ses!
Não sei exatamente o que fiz primeiro, se engoli as batidas do coração ou se me preparei para jogar o vaso de flores quando a porta se abriu. Sei que com os dedos cravados no vaso de petúnias, vi Geraldo entrar pela porta, rosnar para mim e dizer:
- “Legal mesmo é pegar as amiga”.
guida.ribeiro
poesia branca
Poesia branca
É aquela que não rima
É aquela que em cima dela a gente vai e planta
Um poema
Uma idéia
Um casal de andorinhas recém chegadas da migração
Poesia branca
É aquela que não bate
Que por mais que se dilate a métrica não acalanta
Uma rima
Um estribilho
Um pedaço de sorriso condensado em aliteração
poesia branca, 06/11/2009 por guida.ribeiro
um presente virtual
ESTE É UM PRESENTE VIRTUAL:
RAFAEL MEU CARÍSSIMO LEITOR: PARABÉNS PRA VOCÊ NESTE DIA ESPECIAL!
DO GERALDO E DA GUIDA.
- Guigaaaaa! Por que eu to vermelho?
- Porque você sempre quer aparecer mais do que eu…
- Parabenzo, Ralfaaaaaa… Ah, se você tiver um gato plástico sobrando passa pra cá!
- Geraldo, contenha-se.
- Ah, Guigaaaa… vai que dá certo….
Beijos, Rafa!
guida.ribeiro & Geraldo
ratos plásticos
- Só Ratos Plásticos, bom dia.
- Bom dia, eu queria fazer um pedido.
- Pois não, senhor.
- Um gato plástico, dos gordinhos, por favor.
- Senhor, não trabalhamos com gatos plásticos.
- Não tem gatos?
- Não, senhor. Não temos.
- E guaxinins?
- Nós não trabalhamos com guaxinins, senhor.
- Chinchilas?
- Senhor, como o senhor pode notar pelo nome de nosso estabelecimento, aqui vendemos apenas ratos plásticos.
- Mas nem se eu encomendar?
- Não trabalhamos com encomendas, senhor. E, como eu disse, só trabalhamos com ratos plást..
- Eu sei, eu sei. Ratos plásticos.
- É isso, senhor. Posso ajudar em algo mais?
- Pode.
- Pois não, senhor.
- Quero uma codorna plástica.
(…)
- Alô…
- Senhor, não temos codornas plásticas. Apenas ratos. Se o senhor desejar pode preencher a pesquisa de satisfação em nosso site e solicitar esses produtos como sugestão.
- Eu não sei escrever em sites. Só sei fazer palavras-cruzadas.
- Lamento, senhor. Posso ajudar em algo mais?
- Bem, já que não há outra opção, gostaria de pedir um rato plástico, então. Dos pequenos.
- Pois não, senhor. Qual a cor de sua preferência?
- Cor de gato, tem?
- Temos ratos plásticos na cor branca, preta, cinza, malhado ou azul cobalto.
- Preto. Quero um rato preto.
- Pois não senhor. A quem devo endereçar o pedido?
- Geraldo.
- Forma de pagamento, senhor?
- Cartão de crédito.
- Necessito do número do cartão de crédito, senhor.
- Ah… Eu não tenho nenhum comigo agora. Vou ver se acho um aqui pela casa.
- Nesse caso não poderei finalizar seu pedido. Posso ajudar em algo mais, senhor?
- Posso pagar em livros? Tem um monte por aqui…
- Infelizmente não somos entidade de caridade, senhor. Só Ratos Plásticos agradece sua ligação, bom dia.
TU TU TU TU TU TU…
PIM POM PI PON PI PI PUM
- Casas André Luiz, bom dia.
- Vocês têm guaxinins plásticos?
guida.ribeiro
vai-da-valsa
- Guiga, a roupa já lavou…
- Fale corretamente, querido.
- O que, o Guiggaaaa? Já disse que não consigo falar seu nome direito. Só sai Guiga, mesmo.
- Não é isso. Diga: a roupa já foi lavada. E não a roupa já lavou.
- Ta. Aminoácido.
- O que?
- Um dos átomos que forma o aminoácido, Guiga. Com dez letras.
- Como assim, o que… Você está fazendo palavras-cruzadas?
- Tenho que melhorar meu vocabulárico.
- Sei. Vocabulárico? Melhor melhorar, mesmo.
- Venha colocar a roupa no varal, Guiga.
- Já vou, calma aí… Você tem idéia que você é o cachorro aqui? E, portanto, eu sou a dona? E que sou eu quem manda?
- Sei sim. Dona Guiga. A dona. Fala então, aminoácido com dez letras.
- Sei lá, Geraldo. Como eu vou saber isso? Que raio de palavra-cruzada difícil é essa?
- É sua. Peguei no seu criado-mudo.
- Que absurdo. Além de você, um cachorro, fazer palavras-cruzadas ainda mexe nas minhas coisas sem pedir.
- Aminoácido. É isso que importa agora. Aminoácido.
- Geraldo, vamos ao que interessa: já resolveu seu problema de vazio?
- Não. Não tinha bonzo. Acho até que nem existe mais esse negócio no mercado.
- Certo. Vamos ter que dar outro jeito, então.
- Como?
- Falando mais sobre o tema.
- Amor é nome de (…) . Com seis letras.
- Engraçadinho. Já vi que hoje você não quer falar sobre sentimentos, não é?
- Não. Sentimentos: quanto mais se fala menos se faz.
- Uau. Gostei. Quanto mais se fala pior fica. Um relacionamento cerebral não dá camisa a ninguém.
- Isso! Abaixo as camisas! Viva as sainhas para cadelas!!
- Ha ha. Cadelas de sainhas são muito engraçadas… Mas, sabe? Acho que hoje quem está sentido um vazio sou eu.
- Nem tem bonzo, hein. Já vou avisando, Guiga. Ah, e bonzo é bem melhor quando está úmido. Chamo de hidro-bonzo. Uma delícia. Nham.
- Seja hidro-bonzo ou não, continuo no vazio. O que você acha que eu devo fazer, Geraldo?
- Com que letra começa o vazio?
- Como assim, com que letra?
- Com que letra começa o vazio?
- É pegadinha ou sua cabeça fritou de tanto fazer palavras-cruzadas?
- Responda, Guiga.
- Ta bom. Deixa eu ver. Com K?
- Não, e para de jogar água em mim enquanto estende a roupa! Vou ficar todo molhado.
- Desculpa.
- Vazio começa com V, Guiga. V de vácuo, de viuvez, de vai-da-valsa, de vai-pra-lá, de vício, de vaca-louca, de vulcão, de viaduto-do-chá! Se esse seu vazio começa com K você realmente está mal. Vê se pode: um kazio. Hahaha.
- Que bobagem.
- Não, Guiga, sou um gênio. Um gênio molhado. Hihi, um hidro-gênio… Isso! Hidrogênio! O aminoácido que faltava, Guigaaaá.
- Eu mereço.
guida.ribeiro
vazio do Geraldo
- Guiga, estou com um baita vazio dentro do peito.
- Cachorro tem isso?
- Peito? Claro, poxa. Que ignorância. Até frango tem.
- Não estava falando do peito, Geraldo. Eu falava do vazio.
- Ah… É, tem sim.
- E qual a razão canina para isso, Geraldo?
- Tem uma cachorra aí…
- Uma cachorra? Sempre tem uma.
- O problema maior é quando são duas!
- Nossa, duas, Geraldo? Geraldão, hein?
- Não brinque, Guiga, é sério.
- Claro, como tudo aqui.
- Isso. Então, não sei ao certo o que sentir.
- Fale-me mais sobre isso, Geraldo. Qual o lance?
- Como a gente sabe se ainda ama uma cachorra?
- Bem, depende do nível da cachorrada. Acho.
- Talvez eu precise beber algo, Guiga…
- Não, Geraldo. Beber não adianta. Já chega o dia do Arak. E no mais, amar pressupõe dor, meu amigo. Curta a sua.
- Dor? O que é isso?
- É tipo… mordida de tubarão.
- É?
- Yes.
- Entendi.
- Eu sabia que você ia entender. Mas e a outra cachorra?
- Ela me comove.
- Xi.
- Guiga, se você fosse cachorro iria entender.
- Claro. Comoção é da natureza dos cães.
- Não brinque, Guiga. O Vazio continua.
- É? Então, vai comer seu bonzo, vai.
guida.ribeiro
e ele era grande
Passei no posto antes de chegar em casa. A Eng. Caetano Álvares brilhava na noite e meu rosto prendia cansaço. Cansaço do dia, das mil coisas que fiz, das mil que falei, das mil que não falei, do choro que engoli, do que não engoli droga nenhuma.
O frentista me chamou de moça e perguntou se eu precisava de algo mais além do tanque cheio, eu olhei para ele, sorri e disse que não.
É engraçado como alguns desconhecidos nos entendem tanto. Ele disse: só ta cansada né moça? Da pra ver no seu semblante. Vai passar, viu moça? Usou exatamente essas palavras. Com a doçura que podia caber nele. E ele era grande.
guida.ribeiro
fuck-ses, ele nem é bonito
O arak acabou de acabar. O que eu tenho aqui em casa tem (tinha) 47 graus.
Grais, sim. Grais. É muito mais sonoro que graus. Faça-me o favor. Love is in the air.
VOCÊ FOI EMBORA DA MINHA VIDA.
“Homem, principalmente marido, nasceu pra ler jornal de manhã.”
“Eu gosto de estar com homens em pleno exercício de consciência (…) vou te deixar a vontade.”
PUTA QUE PARIU. Ele nem é bonito pra tudo isso! Toma banho na pia????????
Todo mundo só trai ali?
Preciso parar de assistir essa merda de novela.
Eu também.
O Zé Mayer até que inspira. Todo mundo quer ser como ele.
Todo mundo cão! hihihi
Deu vontade de ir ao Fuad. Edu, vamos ao Fuad.
Fuck-ses.
(…)
- Geraldo, para de beber.
guida.ribeiro & Geraldo
o que você quiser
Engraçado. Eu pensava há poucos dias: por onde anda Ana Paula Padrão? Sério. Aí, agora, num ZAP, a encontro: Record, uma reportagem sobre pessoas que moram em mocós.
Mocós: lugares arranjados no meio do nada, muitas vezes embaixo de uma ponte, viaduto, pinguela, entre um vão e outro, como abrigo. Um lar.
Lar? Minha barriga está cheia. Se eu estivesse chorando agora, nesse very moment, choraria de barriga cheia. E daí?
Onde se para? Manoel Carlos. Zé Mayer. IdioTIssincrasias. Há, há, há.
Sofri uma desilusão amorosa há pouco tempo e não quero chorar. Hoje quis chorar quando vi a reportagem da Ana Paula Padrão. O Seu Zé, morador de um mocó, chorou quando a repórter cabeluda falou que o lugar era muito sujo. Ah, não a culpo… Coisas da vida. Talvez ela não devesse sair do “globo ocular”, ou talvez tenha sido a decisão mais acertada de toda sua vidaaaaaaaaaa.
Desculpe, Padrão. Não tenho nada contra você. Não tenho quase nada contra quase ninguém, apenas sei que ninguém pode nada.
Acho que vou arranjar um cachorro de verdade. Geraldo vai gostar de ter alguém para se inspirar, um sonho é sempre bom. (será?)
FUCK. Os poetas somos chatos.
Não acredita que eu sou poeta? Então toma:
dor
triste
sozinha
seca
desumana
inútil
pequena
rara
bruta
besta
otária
dor ímpar
solitária
idiotamente idiossincrática
parasitária e egoisticamente minha
uma dor do inferno
que não dói como as outras
dente
dedos
cabeça
ombros
pernas
joelhos
e não queima feito
fogo
gelo
atrito
café
chá
ou
leite
e não dá medo como
estouro
escuro
desterro
mar bravo
pesadelo
mas dói e queima
e dá medo
dor: guida ribeiro, 10/04/04
Esse Jorge da novela, ah, dá um tempo. Fica nu na frente de uma mulher que tá doida por ele e que se chama Paixão. Pode?
Loucura…
Loucura pior é a mãe dele, a MARAVILHOSA Natália-do-Valle-que-não-envallece- nunca, dizer: oh, mas ele está sem camisa!
Dãrdi.
Pior que essa só Maureen Robinson (de Perdidos no Espaço) dizer no primeiro episódio da série, quando eles estavam para ser lançados ao espaço, algo assim:
- Eu deveria dizer algo inteligente…. Mas não consigo.
PS: quer fazer algo realmente importante? Faça o que você quiser.
guida.ribeiro
ordens ao cérebro
TO TRISTE PRA CARAMBA. MAS, RESOLVI NÃO CHORAR.
RESOLVI TAMBÉM DAR ORDENS AO MEU CÉREBRO
TIPO:
RESPIRA DIREITO, ANDA, PULA, FINGE DE BESTA!
Não adiantou. Ele só obedeceu à ordem (claro) finge de besta. Aliás, fingir-se de besta, o clássico “sonso”, sempre dá certo para o cérebro. Eu detesto fingimento, mas é natural do ser humano. TODO MUNDO FINGE. Alguns fingem que amam, outros que gostaram do novo drink merdhè preparado pelo famoso chef francês, Zé. Um drink a base de jabuticabas, peixe espada e amêndoas. Gelo é facultativo.
Falando em gelo, a cada dia que passa me convenço mais que eu estava certa em meu polêmico texto “amor é nome de paçoca”. Seja bacana e se ferre. Dê uma chance, e terá que dar duas, três, quatro, mil. Algumas pessoas são burras. Asnos são geralmente animais peludos. Mulas (dizem) são inférteis. Pombos são ratos voadores. Carneiros às vezes têm seus quatro pés cortados. Chinchilas não servem pra nada.
O arak me faz perder ainda mais a respiração. Por que será? Será que é assim com todo mundo? Vamos fazer um teste: beba um cálice de arak. Faça prova pulmonar. Beba mais dois cálices. Faça novamente. Beba mais três. Ei, levante-se!
O arak, para quem não sabe, tem 45,9º de graduação alcoólica. Mas não saia por aí querendo tomar arak quando estiver com problemas. Tome absinto, são 68º. (não é fácil encontrar esse aqui no Brasil, o máximo encontrado é 53º, é o permitido para nós, povo casto).
Encontrei um desses castos na rua hoje, cambaleava feito um bêbado. Parei o carro na Fradique para almoçar no São Cristóvão e ele veio com jalequinho azul e tudo: Posso cuidar, dona? Pode. Aprendi que é muito melhor dizer sempre que eles podem. No fundo ninguém pode nada.
Tenho saudade do Edu Guimarães e seus textos lineares como este aqui.
Comi um fabuloso salmão com molho de agrião e legumes. Assisti aos primeiros vinte minutos da corrida, li um pouco do jornal (não nessa ordem) e pensei que a vida é boa.
É. A vida é boa.
Ah, o cara de jalequinho azul não estava lá quando voltei para pegar meu carro. Nem meu carro.
guida.ribeiro
pelo quê cativas?
E então o pequeno príncipe se virou para o lobo e disse: que saco!
- Guigaa, você está inventando…
- Não estou não. Está escrito bem aqui, o pequeno príncipe…
- Da última vez que você leu a historinha não tinha lobo nenhum. Era raposa, e ela diz que o pequeno príncipe é responsável por aquilo que eu não consigo falar.
- Pelo que cativas.
- Isso.
- Ora, Geraldo, eu estou lendo a história. É assim que está aqui.
- Você se aproveita do fato de eu não saber ler para se divertir as minhas custas.
- Ta bom, você faz essa cara de cachorro triste… Vou te contar exatamente o que aconteceu. Havia mesmo uma raposa. Ela era legal e fazia o pequeno príncipe se sentir ser humano… Mas um dia a raposa vira lobo.
- Como é se sentir ser humano?
- Ah… Essa é difícil, mas vou tentar explicar. Sentir-se ser humano é acreditar na vida, é acordar de manhã com sorriso no rosto, (mesmo sabendo que vai ser um dia daqueles), é sentir alegria em ter um sonho, é pensar em alguém que se ama, é dar um abraço demorado, é dizer bom dia a um desconhecido, é tomar café, é respirar, respirar de verdade, a plenos pulmões. Isso é vida.
- E o que acontece depois que a raposa vira lobo?
- O pequeno príncipe perde um pouco da vida, decepcionado com a transfiguração da amiga… Ela, sendo uma raposa velha (ou melhor, lobo velho), vira raposa de novo, e o pequeno príncipe volta a respirar. Mas não dura muito. A raposa vira lobo de novo e põe tudo a perder.
- Mas ela é lobo ou raposa, afinal?
- Não sei Geraldo, ela nunca foi de verdade.
- Como eu… Pra você?
- Não, meu bom cachorro de papel, você é de verdade.
guida.ribeiro
paz e pêssegos
I need peace
I need peaches
… ahh
Olha só: depression = deep pression.
Faz sentido?
Poderia ser: depression, a deep pression inside the heart! Inside the fucking heart!
Inglês é um saco. Novela é um saco. Geraldo não aguenta. Foi deitar cedo hoje. Coitado. Detesta novelas em que não há personagens cachorros, não há protagonistas cachorros, não há coadjuvantes cachorros, sequer não aparecem cachorros. Tsc.
Geraldo é um cachorro, não é inglês, e eu estou de dieta.
Dieta = depression. Ou no bom português: que merda!
Penso em chocolate, em pão francês, em pizza.
Por que será que eu só posso comer 1200 calorias por dia? Onde vamos chegar com essa numerologia toda? Tudo por um corpitcho sarado? Maria Rita nem nunca foi gorda…
AHHHHHHH, eu preciso de uma frapê de chocolate! Preciso de um mandiopã! Hahahahah. A maioria do meu público leitor nem sabe o que é isso… Jovens.
Bebo vinho tinto. A dieta de South Beach diz que pode. (mentira!)
Sabe como tudo isso começou? Eu resolvi calcular meu índice de massa corporal para descobrir se estou dentro ou fora do peso, o IMC. Estou fora. Como nos jogos de baseball do Pica-Pau: você está fora!
Quer saber se você está dentro ou fora do peso? Bom, tudo depende do peso que se quer estar dentro ou fora… (que confusão.)
Bem, veja: se você quer estar DENTRO do peso da sua vizinha gostosa, é só pedir o telefone dela e rezar para ela te entregar (o telefone e tudo mais que vier). Se você quiser estar dentro do SEU peso não precisa fazer nada. É só ficar bem onde você está. Se quiser estar FORA vá para Paris. Quem sabe você encontra o Zé Mayer por lá.
Se quiser calcular seu índice de massa corporal basta você pegar uma calculadora, uma fita métrica e uma balança (uma que aguente você!). Meça sua altura, seu peso e vai colocando tudo na calculadora. Insira na memória os números que encontrar, assim, daquele jeito… Depois apague tudo.
Se preferir, pense num número, adicione 10, multiplique por 2, divida por 2, subtraia 10, subtraia o número que você pensou e voilá, dá zero. Pronto. Zero é o marco para tudo. É onde começa seu verdadeiro EU. No caso, você. E zero, cá pra nós, é um belo índice.
Se ainda assim, você se sentir fora do peso, abra uma garrafa de vinho. Dependendo da safra você esquecerá tudo e no dia seguinte nem terá dor de cabeça.
O fato é que eu queria uma feijoada agora. Nada muito elaborado. Uma feijoadinha. Só.
Vou tomar mais vinho.
- Guigaaa, para com esse tec, tec, eu quero dormir!
Hum, pensando bem, acho que vou comer cachorro quente.
guida.ribeiro
DIA MUNDIAL 100 CARRO?
- Grunf!
- O que foi, Geraldo? Por que bufas?
- Estou desestabilizado.
- Desestabilizado? Hum… que palavra bonita. Aprendeu hoje?
- Ontem.
- Conta pra mim, por que você está desestabilizado, hein, Geraldo?
- Soube que hoje era o dia nacional daquele lance dos carros…
- O “dia mundial sem carro”, Geraldo. Começou em 1997 na França.
- Brunf!
- O que? Não gostou da iniciativa? É ecológica. Coisa boa… Ao menos pra nós, seres vivos.
- Não é isso, Guiga. Achei que hoje iam sortear 100 carros. Estou decepcionado.
- Meu nome é Guida, Geraldo. Por que você fala meu nome errado?
- Porque eu sou cachorro, oras… Cachorro não tem boa dicção.
- Hum…
- E quando você diz ali “nós”, está me considerando?
- Ah, Geraldo… E você é ser vivo?
- Não sei.
- Você é de papel, fica grudado na geladeira. O que acha?
- Poxa… Você não tem coração, Guiga.
- Claro que não, você comeu ele. E que coisa mais ridícula essa dos 100 carros…
- Pior é você que fica falando com um ser que não é vivo!
- …
- Truco, Guigaaa! Hi hi hi.
- Vai deitar.
guida.ribeiro
vote em mim
Olá caros leitores (ao todo são 6,5) –> o geraldo vale por meio.
Como diria meu irmão, gostaria de saber “que tipos” de texto vocês gostariam de ver por aqui nos próximos posts. Por esse motivo (e para não gastar celular) eu lanço mais uma famosa enquete aqui:
VOTEM, MEU POVO, PORQUE NINGUÉM AGUENTA A MARINA SILVA FALANDO NA CULTURA SEM PARAR!!!
aguardo seu voto…
guida.ribeiro
sangue e pó
Diário estelar da nave mão…
Neste fim de semana arrumei a casa, lavei roupa, lavei louça, li jornal, assisti Discovery Channel na tv Cultura, aprendi como se faz ração para peixes com sangue e pó de peixe e reestruturei meus sonhos.
A parte mais proveitosa foi o canibalismo.
Não, não falo dos peixes, falo da reestrutura dos meus sonhos: Estou me desfazendo deles para vivê-los.
Canibalismo também é cultura. (e falando nisso, Geraldo nem tchum. Vejam a cara de cachorro dele… pelo jeito vai ficar mesmo com meu coraçãozinho…)

geraldo
guida.ribeiro
geraldo e meu coração
Hoje sou duas. Uma de mim beijou você. Outra não tem coração. Geraldo comeu.
Geraldo come tudo o que não funciona: radio, tv, celular, uma relação de amor…
Geraldo é meu cachorro particular. Como um amor particular. Como um amigo particular. Cachorro é meu gato de rabo empinado.
Geraldo e Cachorro têm algo em comum: eles existem e não são. Como uma de mim. Geraldo é um pedaço de papel grudado em minha geladeira. Cachorro é um gato de madeira que fica em cima da mesa no escritório. Existem, mas não são.
E uma de mim sonha com a felicidade, com o amor verdadeiro, com a reciprocidade, com a vida a dois, casamento. Outra fica sem jeito.
Existir e não ser é uma corruptela da verdade, minha fiel companheira filha-da-puta.
Falar a verdade é como usar cadeira de rodas. O mundo não tem acessibilidade nem sensibilidade para encarar.
Hoje sou duas. Uma de mim ficou perplexa com o coração comido. Outra de mim aquece.
guida.ribeiro
eu não…
não estou disponível
não consigo ouvir música de manhã ao ir ao trabalho
não consigo ouvir música a noite, quando volto do trabalho
não sei nem como consigo ir ao trabalho
não consigo entender o que aconteceu
não consigo entender o que não aconteceu
nunca fiquei tanto tempo com os olhos turvos, NUNCA e não é exagero… foram dez horas sem conseguir enxergar direito
um rio de lágrimas
não seria mais fácil dizer a verdade antes de dizer ACEITO?
não seria mais fácil dizer a verdade em algum momento?
não seria mais fácil dizer a verdade?
o que diabos é a verdade?
o que diabos é consideração?
o que diabos é cuidado?
o que diabos é estraçalhar o coração? – UMA pessoa sabe!
uma pessoa que podia ser todas
uma que podia
podia
DOR
amei
DOR
vivi
DOR
era
DOR
foi
DOR
fim
guida.ribeiro
é…
amo você
hoje
ontem
mês que vem
e amar você é
amar a vida
você é
tudo é você,
vida
e amar vem em que mês?
todos: hoje, ontem…
amanhã
quem?
eu em você
guida.ribeiro
mexedores de pau
Os homens estão sempre mexendo em seus… pênis.
Isso mesmo, pênis. Também conhecido com pau, rola, pinto, bingolim, albuquerque…
Eles mexem nos pênis. E pronto.
O homem não vive um dia sem pegar no danado. Não. Não é por coçar, eu duvido. É impossível haver tanta coceira no mundo. Não é isso, acho que eles querem é garantir que o membro realmente está lá. Uma simples garantia, afinal ele tem que estar lá para o que der e vier, embora “dar” não seja aqui necessariamente o verbo correto.
O homem mexe, apalpa, segura, dá aquela apertadinha, nhéc, e ninguém nunca diz nada, nem ele, nem quem está por perto. Mexer no próprio pênis em público é uma das coisas que todos fazem e isso é como um acordo secreto: as mulheres fingem que não ligam, os homens fingem que ninguém percebe.
Seria constrangedor demais, mas… e se isso fosse comentado?
- Você viu ontem? Quatro a zero pro coringão! Nhéc
- Pois é… Mas não pega no pau quando fala do timão, mano! É falta de respeito.
ou ainda:
- Dona Bela, tem correspondência para mim hoje? Nhéc
- Para o senhor? Acho que não, seu Gilson, a não ser essa aqui sem destinatário, do clube dos mexedores de pau. Se quiser pode levar.
ou pior:
- Doutor, faz três dias que não mexo no meu pau… Será que estou com algum problema?
- Vou examinar. Nhéc
- Mas, doutor, não devia ser no meu?
Mexer. Pegar. Coçar. Apalpar. Seja la o que for, quando se trata de ver um homem com a mão lá… é muito constrangedor, entende? Muito.
Nhéc.
guida.ribeiro
casa-mento vol2.
SIMPLES AZUL 07/03/09
Um engenheiro amigo meu me explicou porque o céu é azul. Não sei se gostei de saber. Era um tempo melhor quando eu não sabia. Um tempo de possibilidades. Eu inventava tantos motivos, ou apenas pensava, era azul e pronto. Sem motivos. Simples azul.
Simples azul pode acontecer no casamento. Simples e azul. Não falo exatamente da cor, afinal o casamento na verdade começa branco se a gente pensar no vestido, ou no símbolo obtuso dessa prática social: pombos. E também pode começar negro, (é, o casamento…) se considerarmos que o pombo fez o pedido em uma danceteria:
PUTZ, PUTZ, PUTZ, PUTZ – Amor, você me ama?
- O que? POIN, PUNTCHAC, POIN
- Eu queria te falar uma coisa… TUM, TUM, TUM, PUTZ!
- Não ouço nada, querido… Não vejo nada também. Ta muito escuro aqui. PUM, BUM, PUTZ, PLUM
- Ah… Quer casar comigo? BLUM, BLUM, CUM, DUM.
- Hein? BUM, BUM, TUM, CUM! Que amigo?
Branco e negro dá cinza, ou mulato, etnicamente falando, mas não é isso não, não é aqui que mora o simples azul. O simples azul vem com o tempo. Sim, o mesmo que mostra se estamos no caminho certo ou se é hora de pular para a frigideira. O tempo mágico que suavemente grita em nossos ouvidos: Ei, que burrada casar só por causa de um filho, hein!? Ou ainda: Saco, eu joguei fora sete anos da minha vida com essa joça roncando (ou) falando mais que a boca do meu lado…
Tempo.
Mas, eu dizia que o casamento é simples azul. Assim com o céu, azul.
O mais engraçado é que não me lembro da explicação.
guida.ribeiro
casa-mento vol1.
Guerra e paz, amor e casamento, noivos, cachorrinhos e rabos. Inseparáveis?
Ultimamente tenho evitado ir a casamentos. Talvez porque eu não goste de chorar. Sempre que vou a um eu choro. Não é brincadeira, são lágrimas.
Igualmente choro assistindo a propagandas, vendo desenhos, discutindo futebol. Choro. O que posso fazer? Sou líquida. Cansei de lutar contra isso. Só não choro na frente de homens. Eles nunca entenderiam. Em outras situações eu choro. Pronto. (Foi brincadeira a parte do futebol, o resto vale.)
De uns tempos para cá assumi esse lado manteiga derretida, e para piorar sou clara, didática, só falo a verdade, sou fiel… só falta voar para ser o próprio superman. Não me cai bem usar cuecas, nem que por cima da roupa, por isso a comparação para por aqui.
Agora, voltando ao casamento. Eu fui a um semana passada. Um, que me empolgou de verdade. E olha que isso foi um dia depois de eu ter praticamente levado um fora no amor.
O noivo, lindamente vestido em uma jaqueta clara com lapela virada, lindo, sorria com tanta verdade que até acreditei que ele estava mesmo feliz. Devia estar. Ela aceitou, não é? Um sim é tão empolgante, tão necessário.
Ela, quando entrou, linda e igualmente sorrindo o tempo todo, me fez pensar que a vida pode existir a dois. Desde que haja dois.
O padre falou coisas lindas mas tive impressão umas três vezes de ouvir manicômio ao invés de matrimônio, o que me fez pensar. Será que eu devo continuar com essa idéia maluca de casamento?
Sim. Aceito.
guida.ribeiro
amor é nome de paçoca
Gelado. O ar está gelado. E o frio quase sempre me deixa triste. Ou, quando estou triste é quase sempre frio. Ou ainda, quando estou triste sou quase sempre fria. Isso. E quando estou assim gosto de dizer barbaridades. Por exemplo: O amor não existe. Amor é nome de paçoca. Eu sempre disse e volto a dizer. Amor é nome de paçoca.
Um dia todos irão perceber: o amor romântico é chato. Se você namora ou se casou com alguém que é bonzinho (ou boazinha, no sentido chato do termo, ok?) sabe bem o que eu estou falando: ser bonzinho é um saco!
Isso mesmo. Entender, ouvir, ser condescendente, ser gentil, ser paciente. Um saco. Ninguém aguenta isso! Somos seres humanos, gente… Precisamos de adrenalina, precisamos do estresse, precisamos de coisas erradas para viver. Simples assim. O Certo é viver o errado.
Dou um exemplo: Quando tudo está bom o que acontece? Vazio. Um vazio enorme. Dá um tédio danado, chega a doer o coração. E quando tudo vai muito bem não dá aquela sensação de que algo ruim vai acontecer?
Agora, e quando alguma coisa vai mal? Corremos atrás, nos mexemos. Movimentamos o jogo. A paixão é isso. A paixão nos faz correr, enquanto a pasmaceira do amor romântico nos dá tédio.
O amor romântico é bonito só em filmes Disney. E olha que ele foi um cara genial que detonou completamente os papéis familiares: criou um país repleto de tios e sobrinhos. Ali nem amor de mãe! Só que depois vieram os filmes…
O amor impossível é o que dura nas nossas cabeças. O amor ingrato é o que cola em nossa pele, o amor estúpido é o que levanta nossos pêlos. Ser sempre doce e amigável dá raiva. Ser sensível, tolerante, educado, romântico e pacífico, dá chifres. Seja bacana e ninguém se afeiçoará de verdade a você. Seja um crápula e seu nome mais cedo ou mais tarde aparecerá na boca descuidada de alguém, que em meio ao tédio de viver um amor romântico sem graça, ao tentar dizer o outro nome, lembrará apenas do seu.
E falando em nome, amor é nome de paçoca.
guida.ribeiro
SABONETE (continuando a série transportes públicos)
SABONETE, 5/12/2006
Seu peito cheirava sabonete. Dos medianos. Medianos no odor, não no tamanho, pois não dava para adivinhar isso naquele momento. Era horrível ter meu nariz tão perto do peito daquele homem, mas ninguém parecia se importar com tal fato. Às vezes gosto de imaginar o que as pessoas poderiam estar pensando. Naquele momento a senhora com a sacola de compras devia estar pensando no emprego do filho que ia mal – ela tinha cara de mãe com filho com problemas no emprego – O rapaz sentado, fingindo que dormia, devia estar pensando que seria horrível se alguém soubesse que ele estava fingindo que dormia enquanto havia uma senhora a sua frente, em pé, com sacola. O senhor com uma malinha azul em uma das mãos parecia não pensar em nada; a mocinha que olhava o cobrador queria casar; a senhora muito magra, queria sua parte em palavras-cruzadas e todos os outros 44 passageiros sentados em pé só pensavam em chegar em casa…
guida.ribeiro
qual estação de metrô?
ESTAÇÃO, 18/9/2008
Alguns passageiros que estavam próximos à porta saíram. Estrategicamente olhei pela janela para ver qual era a estação já que o que o condutor dizia soou apenas como: “estação….. ranirreni”. Enquanto pensava no motivo pelo qual os condutores de metrô simplesmente não falam português, pela janela finalmente pude ler: Estação Emergência. Não me lembrei de ter visto aquela alguma vez, porém eu devia saltar na Estação Saída. E o fiz depois de três minutos.

guida.ribeiro
Um diálogo possível
- Como foi o passeio, querida?
- Diferente.
- Como assim, amor? Você foi fazer compras hoje, não foi?
- Sim.
- Então conte o que aconteceu de diferente…
- Saí da Av. Higienópolis cheia de sacolas. E dividas, é claro. Dobrei a primeira à esquerda e fui indo, contando com minha costumeira noção espacial.
- Ah…
- É, eu sabia que deveria dobrar a esquerda de novo, porém passei… Fui parar na FAAP e lá presenciei algo muito interessante.
- O quê?
- Um pedinte. Como você consegue me ouvir e ler jornal ao mesmo tempo?
- Eu tenho uma ótima capacidade cognitiva, anjo. Mas continua, o que tinha o pedinte?
- Ah, sim… Ele era jovem, bonito, pediu cinco centavos. Chovia e eu tive um sentimento especial por aquele jovem. Não sei porque mas abri mais o vidro para dizer que não tinha dinheiro.
- Já te disse, amor, para não abrir mais o vidro.
- Mas eu abri… e ele sorriu.
- Ah, é?
- É. Seus dentes brilhavam de tão brancos. Mas ele estava com tinta no cabelo e nas roupas… Eu voltei a dizer que não tinha nada, e ainda disse que ele iria ficar resfriado se continuasse ali. Mas ele apenas sorria e insistia nos cinco centavos.
- Ele tinha tinta no cabelo e nas roupas? Na frente da FAAP? E o que mais aconteceu, querida?
- Não sei se foi um reflexo ou uma mania minha, mas novamente neguei o dinheiro e pedi desculpas… Em inglês.
- Em inglês?
- É, falei: não tenho cinco centavos, I’m sorry! Saiu sem querer, sabe?
- Ah…
- Mas ele respondeu, no problem.
- Respondeu é?
- Sim. E ficamos por alguns segundos conversando em inglês, ali, em plena tarde de quarta-feira, em frente a FAAP!
- Ah…
- O que? Você não acha diferente isso? Agora os pedintes estão globalizados ou algo assim…
- Algo assim.
- Hein?
- Você estava falando com um bixo, amor. Um novato da faculdade. Um bixo da FAAP.
- Ah… Me passa o jornal.
guida.ribeiro
Maravilha
Gizmo. Gizmo é uma palavra interessante. Na verdade é um nome, assim como George não é? Só que mais estranho. Um dia conheci um cara que tinha um nome diferente assim. Era o Maravilha. Maravilha era artista. Quando o conheci eu tinha uns treze anos, ele dezenove, vinte, algo assim. Para mim vinte anos era o máximo da maturidade, como deveria ser para todas as trezeanistas que estavam naquela mesa de cantina às três horas da tarde de um dia de verão… Mas hoje talvez não seja bem assim.
Ultimamente quem tem treze anos já é meio adulto. Já nem é mais criança, nem pré-adolescente. É pré-adulto. Os meninos que tem treze anos já tem bigode. As meninas… muitas delas já são mamães.
Isso me faz pensar que estamos, nós, os seres desumanos, ops, humanos, evoluindo muito rápido. O interessante é que hoje estatisticamente e na média o homem vive mais, por outro lado parece que envelhece mais rápido. Tenho um vizinho, por exemplo, que tem treze anos e quase dois metros de altura. Um outro, também com treze anos, tem três netos! É, não é brincadeira… Bem, ele é um cão labrador chamado Roger, mas… é meu vizinho. (uh).
Dos meus treze anos para cá venho sempre me lembrando do Maravilha. Ele disse uma coisa muito interessante no dia em que o conheci: disse que melhor do que assistir a uma peça de teatro era fazer uma. Eu fui conferir e dei razão a ele. Fazer teatro é lindo. Todo mundo deveria experimentar.
Aí o Maravilha tirou um cigarro de maconha do bolso. Acendeu. Ofereceu. Ninguém aceitou. Ele fumou normalmente na cantina em frente à escola. Naquela época não havia ronda escolar, não havia nada além das “veraneios vascaínas” ou uma “baratinha” aqui outra ali… Além de mim, mais outras quatro ou cinco garotas, amigas minhas da mesma 8ª.Série-A, continuaram a conversar com o rapaz como se nada de diferente estivesse acontecendo. Ninguém fumou com Maravilha, só ele.
Olhando todo o quadro agora percebo que o mesmo cara que me fez experimentar o teatro e sentir uma grande satisfação na vida – o melhor tempo que tive foi o tempo do teatro – poderia muito bem ter sido o precursor de uma vida levada pelas drogas. Por sorte, ou por destino, eu não provei. Ainda assim, se eu tivesse provado naquele dia, talvez não tivesse gostado. Se tivesse gostado, talvez não tivesse feito qualquer diferença… Mas o fato é que todos os anos, milhares de jovens morrem por causa das drogas. Crianças, jovens, adultos, idosos, morrem por causa das drogas. Famílias são dizimadas por isso ou por álcool ou por tantos outros vícios…
Sorte.
Para George, o meio-irmão do presidente Obama, aquele que sequer foi convidado para a posse, a história teve outra versão. Para Phelps com sua sunguinha de nadador extraman, também. (Será que agora vão continuar achando que ele não é humano?) Bem, depois de um excuse-me, no pais do excuse-me, a gente esquece tudo.
Que bom.
Ah… Ia me esquecendo… Excuse-me,
guida.ribeiro
Lebres
A crise está aí, mas para que sofrer? Temos as lebres! Calma, me explico: lebres são bichos cosmopolitanos, e isso não é tipo de pizza, é tipo de gente. E falar sobre gente é melhor do que falar sobre a crise. Deixa a crise pra lá…
Lebres estão sempre prontas para a felicidade, gostam das suas parceiras (outras lebres) e vivem em comunidade. Veja só essa: “As lebres européias mudam seu comportamento na primavera, as quais podem ser vistas, ao longo do dia, correndo atrás de outras de sua espécie nas pradarias.” Isso eu extraí da wikipedia… Grande coisa ou não, ta aí para todos verem: lebres existem e gostam de lebres.
Eu conheço várias. E as brasileiras correm pelas pradarias em todas as estações.
Lebres podem ser peludinhas, branquinhas, gordinhas, orelhudinhas, fofinhas, gostosinhas, lindinhas, mas estão sempre atrás de uma coisa: outras lebres.
A vida é simples quando começamos a entender o processo lebril. Uma lebre nasce numa familia propensa a ter filhotes lebres. (claro). Nao há registros de lebres nascidas de cães ou cavalos, mas eu não botaria minha mão no fogo.
Logo cedo muitas investem mais em brincadeiras aventureiras, ou seja: mais carrinhos, menos bonecas, (aliás, imagine só uma boneca lebre, seria ótimo, mas ninguém pensou nisso ainda…) Depois fica muito mais trocar chuveiro, menos costurar; mais consertar carro, menos se pintar; mais discutir a relação; mais apresentar a outra lebre para a família achando que ninguém vai entender que elas são lebricas…
No início se sentem lebradas, ou melhor, lesadas, por justamente ser diferentes. Mais tarde sentem-se lebrais, ou melhor especiais, justamente por ser diferentes. Lebres são geralmente invejadas por mulheres e por homens, elas conseguem muito mais parceiros do que os dois juntos, muitas vezes. As mais descoladas estão sempre em vantagem, podem dormir junto com a amiga lebre e ninguém vai dizer nada.
O bom é que o processo lébrico sempre causa furor. Se você é lebrica e está lendo este texto, sorria agora. Se não é, sorria também… Assim ninguém vai saber se voce é ou não é.
guida.ribeiro
pombos
Ah, interior. Sempre uma aventura. Vir ao interior visitar meus pais é sempre interessante, porém, se existe uma coisa que eu não tolero nessa vida é mau gosto musical. Música é música, deveria ser agradável aos ouvidos, deveria nos trazer alguma coisa. Há algumas que me trazem… DESESPERO.
Veja esse vizinho da casa dos meus pais. O capitão caipira. Um caipirão esquisitão que acabou de instalar um daqueles auto falantes (baratos) em seu carro (idem). Visualize: um Escort mais velho do que eu, acho que cinza ou algo assim, com vidros fumê, e com tudo, absolutamente tudo a seu redor vibrando ao som reverberado de seu grande auto falante brilhante. Um auto falante enorme porem péssimo, daqueles que parecem uma bomba prestes a explodir. Ave Maria! Que horror. Pura tortura: “Extravasa”… ou “é o amooorr”, ou o pior de tudo: “é festa de rodeio, tem mulher e sei lá o que mais”. Fico imaginando, que mulher? Qual seria louca de agüentar isso nos ouvidos?
Gosto não se discute, obvio, se o sujeito guardar o dele para si. No caso do vizinho, certamente é um problema de berço. Ele caiu de cabeça do berço quando era criança e ficou com a função cognitiva afetada, em outras palavras, não consegue distinguir boa musica de pura merda.
Educação? Passou longe. Sua mãe deve ser surda muda e seu pai uma planta.
Amigos? Se boi contar, tem algumas reses por aí pela cidade afora. Isso se falarmos de amigos que têm melhor nível intelectual, se formos nivelar pelo nível do próprio capitão caipira restam os pombos, ou melhor, as titicas deles.
Ah, interior…
guida.ribeiro
dormir é bom
não espero tanto da vida mas quero algumas plumas
dormir sem plumas é dolorido
guida.ribeiro
ESQUISSE
rabisco
rascunho
esboço
e a realidade
é
melhor do que o desenho
agora eu faço
sigo e faço
sempre fiz
e vou
continuar fazendo
guida.ribeiro
eu vivi
queria tocar o céu
pegar o sol, queria
mas tudo apenas
a penas, me parecia
e andei feito uma barata
tonta
dei soco em tanta faca
na ponta
queria viver ao léu
e morder o anzol um dia
mas sempre tudo estanca
na quarta das cinzas
e o trem, aquele, eu perdi
perdemos, todo mundo perde
ao menos eu vivi
vivemos
e o sol estava aqui
o tempo todo aqui
guida.ribeiro
MAIS UMA BOBAGEM
Olá,
Depois de muito papo com amigos, (fiz muita enquete por aí), acabei por sacar algumas coisas… Agora, nada com uma boa pesquisinha na net para ter certeza das sacações.
Por esse motivo estou lançando a seção RESPONDA SE FOR CAPAZ:
beijos e queijos,
guida.ribeiro
WHAT A LIFE…
A vida é boa, não discuto. É boa ao menos para mim e para várias pessoas que conheço. Sei que não é fácil para tantas outras, mas não quero aqui ser polititicamente correta. Quero ser o que for para eu ser.
A despeito da vida ser boa, essa foi uma quinta-feira de perdas nas bolsas de NY, foram mais de 5% negativos: negaram uma forcinha aos monstros bebedores de gasolina;
A dengue continua. São 72 cidades em situação de alerta em nosso país;
A região metropolitana de BH sofre com as chuvas;
Eu to louca pra comer um pastel!
O Pica-pau continua fazendo todo mundo de besta;
Nos últimos 5 anos 200 mil estudantes frequentaram cursos de empreendedorismo no Brasil;
O Word de Bill Gates não está ainda ligado na nova norma de escrita (continua dizendo que frequentar tem trema!);
O ENEM é o FIM!
A sardinha pode estar sumindo de nossas águas;
Será mesmo que virão as cotas em universidades públicas para negros, índios e pardos, ou cidadãos de baixa renda que cursaram ensino médio em escola pública?
Pirataria em navios também existe!
Enfim, a vida é boa e eu adoro escrever e assistir TV ao mesmo tempo….
guida.ribeiro
pra não dizer que não falei das flores
E em meio a muitos pensamentos introspectivos olhei a Mirna impassível e disse: Você não sofre porque você é um vegetal. É da natureza dos vegetais vegetarem aí! Se ela pudesse certamente me diria: e você é um animal. Mas não pode. Não pode me dizer nada.
guida.ribeiro
ANDO filosofANDO
É bom morar onde eu moro. Posso ver o dia acabando da janela da minha sala. Também vejo a vizinha do prédio em frente passando roupa, o vizinho ao lado dela assistindo TV na sala, fogos de artifício, luzes da São Paulo inescrupulosa e linda… Tudo compondo um quadro de vida. Vida.
Sexta-feira a noite, e entre um drink e outro, um pensamento e outro, resolvi assistir a um filme: O Tempero da Vida. Parece bonito.
Estou feliz mas estou triste. Obrigada, sou mulher, sim. Que bom. Pelo menos pra mim.
Deu saudade do mundo, dos velhos amigos, velhos amores, novos amigos, novos humores.
O tempo realmente é frágil como a água como Caetano disse. E eu vou seguindo. Sempre seguindo. Como me disseram uma vez, num trilho, empurrando aquele carrinho estranho com manivela. Pra baixo, pra cima, pra baixo, pra cima.
Uma vida. Quase quarenta anos, alguns casamentos que não deram em final feliz. E daí? É obvio que estou cansada, mas antes da desistência meu corpo precisava do esgotamento. E não pensei só em esgotamento físico. Queria todo tipo de esgotamento: Psicológico, sensorial, filosófico, sudoríparo. Por isso insisti até aqui.
O amor é isso. O fim. Mesmo que você ame apenas a você mesmo! Ou o que faz, ou a seu carro, ou ao vizinho. O fim é felicidade.
Não me culpo por querer ser feliz para sempre. Ensinam a gente a querer isso desde que somos bebês, mas o fato, a realidade mesmo que a gente aprende depois dos livros de histórias encantadas é que nós, seres desumanos não podemos ter nem ser nada para sempre. Muito menos felizes.
Muito mais porque a felicidade eterna cansaria, nos deixaria chatos… E depois de algum tempo o coração se acostuma e pára de bater mais forte. Que graça tem?
Queria apenas sorver os minúsculos pedaços das possibilidades. Os minúsculos, os graúdos, os volumosos, os pesados, os petiticos. TODOS!
Mas do que estou falando? A vizinha já passou toda a roupa e eu ainda filosofo?
Estou cada vez menos inteligível.
Boa noite.
guida.ribeiro
assim, assim
voltei,
na verdade nunca fui
que entrave silencioso viver
com a corda de uma solidão no pescoço
não creio mais em mim pois afinal de contas jurei…
a insanidade não me exclui
e nesse gesto gasto de meter
os pés pelas mãos no olho do amor
fico só no esboço
e em uma vida assim, assim
pouca
guida.ribeiro
estamos em construção ?
é… eu gostaria de ter só esse emprego: escrever.
mas não é bem assim… estou em trabalho de orçamento 2009, uma loucura entre outras coisas que faço para ganhar meu leitinho.
Por isso, vou ficar devendo novos posts por mais alguns dias, ok? Vamos considerar que estamos em construção

Logo estarei de Volta…
AMO VOCÊS!
beijo,
guida.ribeiro
e depois do fim o re começo
quando escrevi este pequeno guarnapoema pensava na possibilidade de recomeçar na mesma estrada… agora penso apenas no eterno e saudável recomeço (danem-se as estradas) que é a vida.
re + começo = vida.
guida.ribeiro
longamente gostaria, mas…
Nada é tão simples, mas igualmente não é tão complicado assim. Sou uma mulher. Ponto. Não que isso já não me renda várias complicações…
Longamente gostaria de expor minha história aqui, mas não há tempo. Em poucos minutos estarei longe e vou para um lugar onde não há papéis em branco, máquinas de escrever, laptops, lousas, flip charts, quadros brancos, gelo, nada em que se possa escrever, enfim. Um inferno.
Não, não estou com uma doença terminal e muito menos penso em me matar. Não é esse o inferno para onde vou, também não estou indo para uma ilha deserta nem pretendo fazer um retiro espiritual na Índia. Não estou também tendo uma crise existencial que me levaria a pensar seriamente em procurar um psicoterapeuta. Uma, na verdade. Em certas profissões prefiro mulheres, talvez seja uma veia machista que tenho (puxei minha mãe) ou talvez apenas isso revele mais sobre mim. E olha que sou um livro aberto.
Estou indo sim, para o fim. O fim da página, o fim do post, o fim do livro. Sim, o fim. Aquele mesmo lugar em que tudo acaba. Tudo fica sem gosto. Fim. Apenas isso.
Fim.
guida.ribeiro
citações I
amor inimigo – MERCENÁRIAS
(SANDRA COUTINHO – ANA MARIA MACHADO – LOU)
CADÊ AS ARMAS – 1986, BARATOS AFINS
“o limite, relações lesadas
mantém o segredo, desejos de nada.
o vácuo, vils me falam
trazendo mistérios, vazio e tédio
vozes, vidros quebrados
estiletes na mente.
o Eu fragmentado,
desejo enquadrado.
a cidade, eterno retorno
suporta o medo, do abandono
realidade, claridade súbita
lúdico objeto.
amor inimigo
a solidão é um fato! (…)”
outro sábado na padaria: sutilezas ou desgostos nojentos
Cuecas brancas. Cuecas brancas e barba por fazer. Bem, tudo pode ficar bonito para a pessoa certa. Para a pessoa errada não ficam bem cuecas brancas e barba horrenda por fazer, adicionada a cabelos compridos. Cabelos grandes. Fios de mais de 20 cm devem ser lavados. Cada centímetro.
O Cuecas-Brancas está a minha frente. Não sei o que nele exatamente me fez ter essa impressão que não me agradou. Talvez porque ele em dado momento tenha limpado os dentes com o dedo. Sim, aquele ato que alguns diriam sutil de enfiar o dedo indicador entre a parede de dentes e a bochecha a fim de pinçar o alimento ali depositado, muitas vezes, a maior parte delas, empurrando-o novamente para o centro da boca. Ave Maria!
Muita gente faz isso em público. Uma vez saí com alguém que o fez sem o mínimo pudor. Disgusting, pensei. E entre um desgosto nojento e outro descobri que Dedo-na-Boca tinha 50 anos quando disse ter 38. Encontros pela internet são sempre emocionantes. Sutil.
Aríete, por exemplo, uma amiga, é um bom exemplo de que sutilezas não se põe a mesa, se põe na cama, como diria Débora, uma outra amiga.
Aríete é uma dessas moças que não querem se envolver nem se comprometer com nada. (me faz inclusive lembrar de outra amiga…) Passam a falsa (e extremamente real) sensação de que estão no mundo a passeio. Choram como qualquer mulher, mas são lágrimas que a cada mil não sai um milagre. Crocodilas.
Um lindo casal senta-se a minha frente. Lindo porque são delicadamente frescos (não, não é um casal gay!).
Ele é lindo, impecável, tem um olhar plácido, dá impressão que é bom em tudo que faz… e ela lembra meu último marido.
guida.ribeiro
mais um sábado na padaria
Olhos. Olhos sempre dizem muito. Vejo todos me olhando, e apesar de todo meu charme, continuo sozinha. E olha que sou uma mulher moderna, geralmente vou à luta. Mas, sair por aí é barra às vezes. E por outro lado não adianta, pois ando naquela fase em que parece que há um campo de força me impedindo. Fico parada por mais de cinco minutos na frente do bar, dentro do carro, pensando em nada, tipo o Pateta do Walt Disney, manja?
Ir à luta cansa, assim como cansa ouvir o latido idiota desse cão no outro lado da rua, assim como esse alarme irritante disparado desde que cheguei aqui.
À minha frente loiras mamães. Loiras e mamães, combinação explosiva!
Acho que o alarme nunca mais pára. E dane-se a nova regra.
Há mulheres ensandecidas atrás de mim. (sempre). São mulheres da idade média, ou melhor, de meia idade, que querem dar para o Chico Buarque. Cansativas, mas podem ser engraçadas. Eu apenas as ouço. Não tenho coragem de olhar. Será que eu vou ficar assim? Que medo.
Elas também teriam medo de mim se soubessem o que escrevo aqui.
guida.ribeiro
idioTIssincrasias, é o que é…
idiossincrasia: do Gr. idiosygkrasía < ídios, próprio + sýkrasis, constituição, temperamento; s. f., disposição do temperamento de um indivíduo para sentir, de um modo especial e privativo dele, a influência de diversos agentes; reação individual própria a cada pessoa.
idioTIssincrasias é uma tentativa pálida de descrever as idiossincrasias idiotas de uma escritora.
tudo
nada dentro
nada a contento
nada casa
nada passa
continuo sem asa
nada me abraça
continuo sem nada
nada em cima
nada acima
nada fica
nada extravasa
continuo sem alma
nada se encaixa
continuo sem nada
tudo me escapa
tudo
guida.ribeiro
grip
Estou tossindo feito uma mula. Curtir a grip é sempre assim.
Sim, grip. Aquele negócio que inventaram para “pegar”. Aliás, grip em inglês é o mesmo que pegar. Tem também grasp, hold, chench, grab, mas nada disso é tão virótico quanto a grip.
A grip é socializada. Pega o grande, o pequeno, ou qualquer um dos tantos tamanhos; pega o homem, a mulher, ou qualquer um dos doze sexos. A grip agarra feito carrapato, e não sai com algodão e álcool, embora esse último ajude bastante.
Sinto-me como uma urtiga.
Meu lado esquerdo do cérebro se esqueceu de acordar hoje, o que obviamente se nota sem dificuldade.
Meus músculos parecem pastéis, comidos. Minha voz me lembra um corredor, polonês.
Eu ficaria horas relatando meu mal estar físico causado pela bendita grip, mas amanhã acordo cedo e não vai colar faltar de novo no trabalho por esse mesmo motivo.
Antes que me corrijam, mula tosse sim. Quem não tosse é vaca.
guida.ribeiro
semelhanças
O HOMEM PERDE O H SE DESUMANO
MULHER, POR SUA VEZ, O TEM QUASE NO MEIO
MULHER E HOMEM SÃO UNIFORMES NO DESESPERO
guida.ribeiro
boca
Sou uma boca. Não sei ao certo de onde vim exatamente. Talvez big bang, talvez poeira lunar. Mas me lembro de estar na grande caixa de pandora, onde a luz era pouca mas algumas coisas se podia ver: joelhos, pulsos, polegares, nucas, cílios, unhas, cotovelos, dentes…Tudo envolto num ambiente plácido com aroma que lembrava roupa recém lavada com um bom amaciante. Conforto. Sim, era muito confortável a caixa.
Levei um tempo para conhecer todo mundo dali. Decorar os nomes de todos me parecia impossível. Por isso alguns deles eu mesma inventei.
Me afeiçoei inicialmente mais à Ruth, a pálpebra esquerda. Ruth tinha seus segredos, não era transparente como as pálpebras de crocodilo (ou seria jacaré?). Talvez por isso mesmo eu tenha me afeiçoado tanto a ela.
Ainda havia Roger, Fúlvio, Clara… Clara, era a coxa direita, fazia sempre tudo nos conformes e nunca se metia em encrencas. Não podia se dizer o mesmo de Roger, o nariz. Ele sempre se metia.
Também havia Jonnis, um enorme dedo indicador. Jonnis era tão avantajado que cheguei a pensar que era na verdade o médio. E isso me levava a ficar horas imaginando como seria o grande.
Sobrancelha. Sobrancelha juntamente com glote sempre foram nomes que no início imaginei fossem xingamentos. Cala a boca, glote! Vá se arrepiar, sua sobrancelha! Eu imaginava dizer um dia… assim que tivesse uma oportunidade. Mas o ambiente na caixa era tão calmo que eu nunca tive.
Ah, quanta gente bacana ali. Era uma turma e tanto.
Mas chegou o dia em que todos fomos avisados que estava próxima a transferência. Iríamos finalmente para o Corpo.
Não sei ao certo o que se deu. Talvez big bang, talvez poeira lunar. E um belo dia eu estava ali. Linda. Irrepreensivelmente linda.
guida.ribeiro
ZENIT POLAR
TODA MANIFESTAÇÃO DE ARTE
PODE SER O QUE
VOCÊ QUISER
REDI MILAFOSRICIE DO ETRO
ZEDO SOT E QUO
VECO QUASOT
guida.ribeiro
adapte-me
RAPTE-ME CAMALEOA
CAMALEÃO
CAMAREIRA
CAMARADA
CAMADA
CAMANDUCAIA
CAMAFEU
CAMACHO
CAMARÁ
ADORO DORMIR
guida.ribeiro
veredicto
“Algumas mulheres olham para todo mundo. Isso reforça sua auto-afirmação.” Mirna, a planta.
Padaria. A nossa. Vazio. Não há ninguém… Ao menos em mim. Nada. A não ser em sonho e um mal-estar leve no estômago.
Em sonho sou feliz, completa, alguém me abraça… A propósito, a padaria não está vazia. Está repleta de pessoas como sempre, comendo seus pães na chapa e seus cafés de domingo.
Eu não consigo deixar de fazer a pergunta mágica: Por que preciso tanto de alguém? O pior é que acho que estou a cada dia mais chata. Isso é péssimo porque a pessoa que gradativamente iria, por amor, me aceitar do jeito que eu sou não está comigo ainda, (não chegou, ou se chegou, chegou mal – eu nem percebi!) e possivelmente não haverá tempo para gradativamente engolir minha chatice. Quando essa tal pessoa me conhecer, vai ter que engolir minha chatice num gole só, numa bocada só, e vai engasgar, é claro, como o pato que comeu jenipapo.
A beleza me comove. E como diz Edu, a beleza é algo bonito. Eu, (como ele), definitivamente preciso da beleza. Preciso.
Ela é linda, a moça da mesa perto dos bolos, mais a direta.
Por outro lado, o lado da frente, (ou nesse caso, de trás) não há amor que resista a uma bunda enorme. Vejo uma agora se abaixando bem a minha frente para consultar o preço de um prato com frios.
Há um casal antes da bunda. Ela tem uma pinta no meio da face esquerda. Ele não tem nada. Mais uma mulher bonita… E eles são tão parecidos. Talvez irmãos.
Estou passando mal. Vou ter que ir embora para casa, mas talvez ainda haja tempo para mais um comentário: A moça é tão convicta de sua sexualidade, ou tão fascinada pelo irmão, ou os dois, se é que é possível, que não olhou sequer meia vez em minha direção. Bem, só porque eu falei. Acabou de olhar bem direto nos meus olhos. Olhar penetrante.
Veredicto: é fascinada pelo irmão.
guida.ribeiro
roupa-de-cachorro
Hoje, no caminho de volta do trabalho pensei em algo para escrever.
O fato é que agora me esqueci. E como sou paga para escrever aqui, vou ter que escrever de qualquer jeito. Eu sei, devia sempre anotar as idéias, mas no trânsito, o que mais se quer fazer é chegar logo. Mesmo quando no farol pára alguém interessante num carro ao lado sem insufilm. Sim, porque com o tal filme não dá para saber se a pessoa é interessante. Nem dá para saber se é uma pessoa. Já imaginou olhar para o lado e ter a impressão que há um rottweiler dirigindo um fiat uno mille?
Ah, lembrei-me do que ia dizer: Roupa social e cães.
Vou falar da questão roupa social, cães e eu.
Primeiro, o termo “roupa social” me parece no mínimo engraçado. E se existe a social – terninho, calça de microfibra, tailleur, aquela linda camisa branca com punhos enormes e botões fantásticos… – também deve existir a anti-social. A roupa anti-social é aquela que não veste. Deve ser uma roupa que despe. Assim como o olhar de certos homens.
A roupa anti-social também pode ser aquela que faz todos se distanciarem de quem a está usando: Uma camisa de time, por exemplo. Dependendo do time, ela ficará manchada de ovos.
Dentro de uma roupa social me sinto como um poodle vestido. Uma cadelinha com saia bailarina. Aquelas que fazem malabarismos ou algo ainda mais esdrúxulo.
Os cães têm pelos, meus amigos, não precisam de roupas. Além disso, eles fazem suas necessidades fisiológicas (incluindo sexo) em via pública, sem o menor constrangimento. Não precisam de roupas.
Eu preciso delas. E, em tempo, eu mesma escolho minhas próprias roupas sociais, muito porque não tenho dono. Mas ainda assim, todos os dias que me visto para ir trabalhar sinto-me na verdade vestindo uma roupa-de-cachorro.
Se eu encontrar o rottweiler amanhã vou sorrir para ele.
guida.ribeiro
tenho um filho que não é meu
Não tenho filhos, mas depois dos trinta tive vontade disso. É como um botãozinho que em certo momento da vida é acionado automaticamente no cérebro (ou em outro lugar do corpo…), Plec! e a gente cisma em tê-los. É engraçado. Já conversei sobre isso com amigas e amigos também, mas na mulher isso parece mais evidente. Mesmo as resistentes tiveram esse mesmo “momentum”. Aí a gente sai à caça da família. Coisas de quem tem genes. De novo. Genes. São responsáveis por grandes catástrofes na terra (claro!). E por coisas fantásticas também.
Mas filhos, além de ser um dos desejos que temos, assim, do nada, como aquela vontade maluca de beijar o vizinho no elevador, são também um grande problema.
Principalmente para quem não os tem e tem que agir como se os tivesse:
Filhos do namorado, filhos do marido, filhos do amigo. Ai… que problema!
Por exemplo, filhos homens. Homens são irritantes quando pequenos. (não foi um trocadilho barato, desculpem-me, não tive a intenção). O fato é que eu concordo com aquele pensamento que diz que os homens, logo ao nascer, deviam ser colocados num quarto e trancafiados até os trinta anos. Quarenta em certos casos, e… forever em casos extremos. Não sei quem bolou esse plano (ouvi a Ale, uma grande amiga, dizer isso um dia, há muuuuuuuito tempo), mas quem bolou sabe do que eu estou falando.
Hrhz! Moleques… Que raiva. Banheiro sujo. Tampa de privada com respingos escatológicos, tapete enrolado no chão, (parecem ter rodinhas nos pés, ou pés cheios de parafusos auto-atarrachantes na sola), som alto, músicas horrendas, tv naqueles programinhas com zero de conteúdo e muita berinjela, as meias sempre encardidas por andar sem chinelos, quarto sempre em desordem, cadernos de escola mais parecidos com mapas do inferno, calçados número 40, com chulé, jogados por todos os lugares, calças caídas deixando as nádegas completamente aparentes, (e acham isso lindo!), dentes que não são escovados direito há dias (meses?), mau-hálito, cabelos que não vêem água desde a revolução russa, e cheiro de corpo! Sim, “cc”. Ah… A hora da comida parece o despertar do mundo, como diria minha mãe. Acho que eles pensam que a comida vai fugir, ou que os outros à mesa estão lá apenas para um bate-papo e não precisam se servir também, ou não devem! Do jeito que comem rápido devem ter papilas gustativas no estômago… (ou seria em outro lugar do corpo)?
E quando começam a namorar e a conta do telefone vira um pesadelo? E quando tiram notas ruins na escola? E quando são estúpidos com visitas e parentes ou com os próprios pais?
Não tenho filhos, depois dos trinta tive vontade disso, mas agora quase chegando aos quarenta, deixa eu curtir meus lindos e perfumados sobrinhos…
guida.ribeiro
pistilos
Prólogo:
O começo é o fim, ou melhor, eu começo aqui do fim. Como vários roteiristas fazem, quero contar a história de trás para frente, do avesso, buscando o real começo.
Estou solitária. Fim.
A solidão é o certo para a raça humana, mas como somos terrivelmente idiotas, logo que alguns hormônios começam a trabalhar não aceitamos isso. Eu, como um belo exemplar da idiotia da raça, não fiz diferente. Mas não me lembro como era quando eu realmente ainda não tinha conhecido o amor, o sexo… Talvez fosse igual. Um fosso igual. Talvez eu me sentisse lá atrás do mesmo jeito que me sinto hoje, uma bosta. A maturidade não faz tantos milagres assim. O que está escrito em nossos genes falam mais alto que a sapiência. E eu, aqui, na sala do meu apartamento, além da tarde de uma São Paulo fria e avermelhada, vejo minha vida indo embora. Agora já foi. A tarde, a vida. Elas vão todo dia. E enquanto eu rio aqui desconfio que elas vão voltar amanhã.
Perpetuar a espécie. É tudo o que queremos. Mesmo quando não queremos.
Somos iguaizinhos ao leão, à vespa, à mosca, ao rato, ao pato e ao elefante.
Somos iguais também às margaridas, aos dentes-de-leão e a qualquer outra flor que tenha pistilos, estames ou os dois. Ou nenhum.
E a igualdade me dá dor de cabeça.
guida.ribeiro







































